Benedita, a lutadora vassouras

Quando chegaram, o sol estava se pondo. O céu estava tingido de laranja e roxo. Joaquim desmontou, amarrou-o e levou Benedita direto para o estábulo.

Uma proposta inesperada.
O celeiro era uma construção de madeira onde se guardavam ferramentas, sacos de café e alguns animais. Joaquim fechou a porta, acendeu uma lamparina de querosene e sentou-se num banquinho.

Ele observou Benedita por um longo tempo antes de lhe fazer uma pergunta simples:

"Você sabe ler?"
Ela não respondeu.

Ele tentou novamente:

Você sabe lutar?

Dessa vez, algo lhe chamou a atenção. Quase nada, mas o suficiente para Joaquim notar.

Ele foi buscar uma grande faca de caça, agarrou-a pela lâmina e estendeu o cabo em sua direção. Benedita não a pegou. Olhou para ela com desconfiança.

Então Joaquim colocou sua espada no chão entre eles e recuou.

Ele explicou que não queria magoá-la nem mandá-la para o campo. Tinha outro plano, mas precisava que ela confiasse nele um pouco, pelo menos naquela noite.

Então ela lhe contou sua história. Dez anos antes, ela tivera um único filho, Vicente, um menino inteligente e corajoso. Um dia, enquanto voltavam da cidade para casa, foram atacados por bandidos. Vicente tentou defender o pai e foi esfaqueado no coração. Morreu nos braços de Joaquim.

Três anos depois, a esposa de Joaquim morreu de febre. Ele ficou sozinho com suas terras, sua dor e uma dívida de doze réis com o Barão de Araújo, o homem mais poderoso da região.

Se eu não pagar antes do final do ano, perderei a propriedade.

O torneio do Barão de Araújo.
Joaquim então explicou a oportunidade que poderia mudar tudo. O barão tinha uma filha, Eduarda, de vinte e dois anos. Ao contrário das outras mulheres de sua comunidade, ela adorava cavalgar, caçar, lutar e jogar.

Todos os anos, ele organizava um torneio na propriedade de seu pai. Lutadores de toda a região vinham competir em boxe, luta livre e outras modalidades de combate. O vencedor recebia 100 réis.

Essa quantia seria suficiente para quitar a dívida de Joaquim, restaurar a propriedade e garantir sua sobrevivência por muitos anos.

Mas Joaquim não sabia lutar. Ele era velho, fraco e azarado.

Então, ele confidenciou a Benedita o que havia percebido nela: não uma mulher inútil, mas uma lutadora. Uma força que ninguém havia compreendido, porque ninguém jamais lhe dera a oportunidade de usá-la.

A proposta dele era clara: ele a treinaria secretamente para o torneio. Se ela vencesse, dividiriam o prêmio. Metade seria dela, 50 contos, o suficiente para pagar os selos e recomeçar em outro lugar.

Benedita perguntou o que aconteceria se ela perdesse.

Joaquim respondeu que perderiam juntos. Ele perderia o quinto jogo. Poderia ser revendido. Mas pelo menos tentariam.

Ela não confiava nele. No entanto, não tinha muitas opções. Algo na voz de Joaquim — um cansaço genuíno e uma dor palpável — a fez pensar que talvez ele estivesse dizendo a verdade.

Ela concordou, diante de uma ameaça simples:

 

 

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