Quando Lucía desceu para a sala de estar, eu a segui à distância. Ela estava sentada no sofá, abraçando os joelhos, com os olhos vermelhos e o rosto pálido. Olhava para si mesma no espelho do corredor como se procurasse a menina que um dia fora.
"Não aguento mais", ela sussurrou.
Então eu fui embora.
—Lúcia.
Ela se levantou de um salto, como se a tivesse flagrado roubando.
—Pai… História
Eu não gritei com ele. Não consegui. Minha garganta estava fechada.
—Por que você não está na escola?
Seus lábios tremeram.
—Sim, eu fui… mas fui embora.
—Desde quando você faz isso?
Ele não respondeu.
Sentei-me em frente a ela, deixando um espaço entre nós.
—O vizinho ouviu seus gritos. Eu também. Não me diga que tudo voltou ao normal.
Lúcia cerrou os punhos até que seus nós dos dedos ficaram brancos.
—Eles estão me incomodando na escola.
A palavra "incômodo" não era suficiente para descrever o que ela começou a relatar.
Primeiro esconderam a mochila dela. Depois rabiscaram nos cadernos. Em seguida, apareceram bilhetes na mesa dela: “Você é nojenta”, “Ninguém te quer aqui”, “Vaza”. Uma vez, ela encontrou tachinhas dentro dos tênis. Outra vez, editaram uma foto dela e compartilharam em grupos de WhatsApp do ensino médio. Ninguém a defendeu. Alguns riram. Outros fingiram que não viram.
"Quem?", perguntei.
Lúcia engoliu em seco.
—Nayeli Ríos.
O sobrenome me atingiu como uma pedra, mas mesmo assim eu não queria entender.
Verónica chegou meia hora depois. Quando nos viu, percebeu que algo sério tinha acontecido. Nós três nos sentamos na sala de estar. Lucía falou mais. Disse que Nayeli não agia sozinha, mas que todos a obedeciam porque sua mãe era professora na escola: a professora Alma Ríos.
—Eu fui com ela —disse Lucía—. Contei tudo a ela.
"E o que ele fez?", perguntou Verônica.
Lúcia soltou uma risada seca.
"Ela me disse que a filha dela jamais faria isso. Que eu provavelmente só queria chamar a atenção."
Verônica cobriu a boca com a mão. Senti uma raiva antiga subir em meu peito.
—Então Nayeli descobriu que eu fui acusá-la—Lucía continuou—. E tudo piorou.
Inventaram uma história de que Lucía estava assediando uma colega de classe. Criaram um perfil falso em nome dela. Nos corredores, a chamavam de "louca", "intensa", "mentirosa". A enfermeira já a conhecia porque ela tinha aparecido com dores de estômago, tonturas e crises de choro. E eu, enquanto isso, carregava sacos de cimento, convencida de que minha casa ainda estava em ordem.
"Por que você não nos contou?", perguntou Verónica, chorando.
Lucía olhou para ela com uma tristeza que nos desarmou.
—Porque você sempre diz que é preciso perseverar. E você, pai… você nunca esteve lá. História
Não havia defesa possível.
Então perguntei o que estava me consumindo por dentro havia minutos:
—Por que Nayeli está fazendo isso com você?
Lúcia baixou o olhar.
—Porque ela diz que você arruinou a vida da mãe dela.
Verônica se virou para mim.
—Você conhecia aquela mulher?
Fiquei paralisado.
Sim. Conheci Alma Ríos muitos anos antes de me casar. Foi um relacionamento breve e mal resolvido, daquele tipo que a gente enterra acreditando que o tempo apaga os vestígios da covardia. Fui embora sem dar uma explicação decente, sem olhar para trás. Jamais imaginei que essa história pudesse voltar, transformada em veneno para a minha filha.
Nayeli me disse que a mãe dela chorou por sua causa, disse Lucia. Que agora era a minha vez de pagar.
Verônica se levantou, tremendo.
—Será que um adulto permitiu isso por vingança?
Eu não sabia o que dizer. A culpa estava me sufocando.
No dia seguinte, nós três fomos à escola. A diretora nos cumprimentou com um sorriso falso. A professora Alma Ríos estava lá, impecavelmente vestida, calma, como se sua posição lhe conferisse autoridade sobre a verdade.
"Precisamos lidar com isso com calma", disse o diretor.
"A calmaria acabou", respondi.
Espalhei sobre a mesa capturas de tela, mensagens, datas, relatórios de enfermagem e as ausências de Lucia. Alma mal olhou para os papéis.
"Os adolescentes exageram", disse ele.
—Repita olhando-a nos olhos—eu disse, apontando para Lucia.
Ele não conseguiu.
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