Quão pequeno.
Maribel pegou uma terceira folha de papel.
—E tem mais uma coisa.
Martin ergueu o rosto, assustado.
-Avançar?
Ela assentiu com a cabeça.
—Eu não paguei apenas pelo terreno. Também separei os materiais: cimento, vergalhões, blocos de concreto. Dom Ernesto tem um primo que é pedreiro. Ele vai nos ajudar a construir dois cômodos e o banheiro primeiro. Não vai ficar bonito no começo. Pode até não ter piso. Mas vai ser nosso.
Martin começou a chorar em silêncio.
Não como nos filmes.
Não com dignidade.
Ela chorava com o rosto contorcido, os ombros caídos e uma vergonha que lhe dilacerava o peito.
Maribel aproximou-se lentamente.
—Eu também queria tacos, Martín. Eu também queria sair. Eu também queria comprar sapatos novos, em vez de consertar os mesmos. Eu também queria que você parasse de me olhar como se eu fosse seu inimigo.
Ele soltou um soluço.
-Me perdoe.
—Mas todas as vezes que eu disse “não”, não foi porque eu não te amava. Foi porque eu estava guardando um pedacinho de parede, uma janela, uma porta.
Martin apertou os papéis contra o peito.
—Pensei que você estivesse tirando minha vida.
Maribel balançou a cabeça negativamente.
—Eu estava procurando um lugar onde você pudesse descansar sem medo.
Essa frase o destruiu.
Porque ele sempre acreditou que precisava de dinheiro para se sentir homem.
Dinheiro para comprar uma rodada.
Dinheiro para evitar ficar em mau estado.
Dinheiro para que os outros não zombassem deles.
Mas Maribel, em silêncio e com seu caderno de papel quadriculado, havia compreendido algo mais profundo.
O que ele precisava não era de uma cerveja para esquecer a vida.
Eu precisava de uma vida da qual não quisesse escapar.
Martin se levantou e a abraçou.
A princípio, ela permaneceu rígida.
Ela havia recebido tantas queixas que até mesmo o afeto lhe parecia suspeito.
Mas então ela encostou a testa no peito dele e chorou também.
A comida esfriou na mesa.
O pudim começou a ficar aguado.
O refrigerante perdeu o gás.
Nada disso importava.
Durante alguns minutos, existiram apenas os dois, abraçados na cozinha de uma casa alugada que já não parecia uma prisão, mas sim uma despedida.
"Sou um idiota", disse Martin entre lágrimas. "Acusei você de coisas horríveis."
—Sim — respondeu Maribel, sem rodeios.
Ele olhou para ela, surpreso.
Ela respirou fundo.
"Sim, você foi injusto. Sim, doeu. Sim, muitas noites pensei em desistir. Eu não sou de pedra, Martín."
Ele baixou a cabeça.
Esse foi o golpe mais duro.
Não estou escrevendo.
Não a terra.
Não era esse o plano.
Era compreensível que Maribel não fosse uma santa saída de um romance, que suportava tudo sem sentir nada.
Ela era uma mulher cansada que escolheu ficar, mesmo quando o próprio marido a fazia sentir-se sozinha.
"Não quero que você peça desculpas apenas hoje", disse ela. "Quero que você mude."
Martin assentiu rapidamente.
—Eu vou mudar.
—Não diga isso só para chorar. Diga com ações.
Ele pegou o cartão bancário da mesa e colocou na mão dela.
Então ele fez algo que ela não esperava.
Ele pegou o celular, abriu o aplicativo do banco e mostrou a tela para ela.
—A partir de amanhã, vamos lidar com isso juntos. As contas, os pagamentos, tudo. Não quero mais que você carregue esse fardo sozinho. E se não houver dinheiro para cerveja, não há dinheiro. Se houver dinheiro para um quarteirão, será usado para um quarteirão.
Maribel olhou para ele por um longo tempo.
Como se ela quisesse acreditar nele, mas estivesse com medo.
—E seus amigos?
Martin enxugou o rosto.
Veja o resto na próxima página.