Casei-me com meu namorado do ensino médio aos 73 anos, porque era o último desejo dele. Depois do funeral, o advogado dele bateu na minha porta e disse: "Você caiu direitinho na armadilha dele."

Thomas me disse que nunca havia sido casado.

Admiti que eu também não era casado.

Ríamos dos nossos cabelos grisalhos, dos nossos joelhos doloridos e dos sonhos tolos que um dia compartilhamos.

Às vezes, ficávamos sentados em silêncio, confortavelmente instalados, o que fazia com que as décadas perdidas entre nós parecessem menos importantes.

"Você sempre toma seu café puro?", perguntou ele certa tarde.

"Eu faço."

"Eu sabia que você faria isso."

Havia algo de incomum em sua calma.

Muitos pacientes com doenças graves estavam assustados, irritados ou sobrecarregados.

Thomas parecia tranquilo.

Ele estava agindo como alguém que esperava há muito tempo por um último acontecimento.

Certa manhã, ele me fez uma pergunta delicada.

Nancy, você tem algum familiar por perto? Alguém está te ajudando?

"Um primo distante chamado Raymond. Ele tem me ligado com mais frequência desde que voltei."

Por um breve instante, a expressão de Thomas mudou.

Seu maxilar se contraiu.

Então ele relaxou e rapidamente mudou de assunto.

Na época, eu não entendi o motivo.

Naquela mesma semana, as ligações de Raymond tornaram-se ainda mais insistentes.

"Você está saindo com alguém?", ele perguntou. "Você não deveria estar sozinha na sua idade."

"Estou bem."

Você já fez um testamento? É preciso designar uma pessoa responsável em caso de problemas.

"Eu já te disse, Raymond. Estou bem."

Ele me perguntou qual banco eu usava.

Ele queria saber se o apartamento era meu.

Ele mencionou novamente sua tia Margaret, descrevendo com orgulho como lidou com a situação no final de sua vida.

Lembrei-me de que Margaret havia morrido quase na miséria, num quarto alugado.

Pela primeira vez, me perguntei por que essa lembrança me deixava tão desconfortável.

No entanto, ignorei meu instinto.

Passei grande parte da minha vida ignorando o que me deixava desconfortável.

Então, numa tarde, Thomas me pediu para sentar ao lado dele.

Sua mão encontrou a minha na capa.

Estava claro e frio.

"Nancy", disse ele, "sinto-me mal por lhe pedir isto."

Nossas conversas haviam se tornado mais afetuosas a cada dia, mas a seriedade de sua voz me assustava.

"Pergunte-me."

"Eu te amei por toda a minha vida."

Parte 2:

Fiquei sem fôlego.

"Sei que não me resta muito tempo", continuou ele. "Mas há uma coisa que sempre sonhei em fazer."

Ele olhou diretamente nos meus olhos.

"Você quer se casar comigo?"

Por alguns segundos, a moeda desapareceu.

Cinquenta e seis anos de perguntas, arrependimentos e possibilidades imaginadas pareciam ter se acumulado entre nós.

Uma parte de mim conseguia ouvir a voz de Raymond me advertindo de que eu estava sendo estúpido.

Mas outra voz — a voz da garota de dezessete anos que eu havia sido — me disse para não ir embora.

Thomas tinha câncer em estágio avançado.

Ele sabia que ia morrer.

Esse foi o seu último desejo.

"Sim", murmurei.

Lágrimas brotaram em seus olhos.

O meu também.

"Sim, Thomas. Quero me casar com você."

Ele apertou minha mão.

"Você não vai se arrepender, Nancy. Eu prometo."

Havia algo de incomum na maneira como ele pronunciava aquelas palavras.

Parecia menos uma promessa reconfortante e mais um desejo cuidadosamente elaborado.

Naquele momento, pensei que ele estivesse falando apenas sobre o nosso casamento.

Eu ainda não tinha entendido que ele queria dizer algo muito mais importante.

O casamento aconteceu três dias depois, no quarto do hospital onde ela estava internada.

Uma das enfermeiras estava ao nosso lado como testemunha.

Um homem discreto, vestido com um terno cinza, apresentou-se como Walter, advogado de Thomas.

Achei incomum um advogado comparecer a uma cerimônia tão íntima.

Mas Thomas estava segurando minha mão, e eu afastei esse pensamento.