Durante três meses, a lateral da cama do meu marido cheirava a podre… Quando finalmente abri a gaveta, a verdade destruiu tudo.

Esse detalhe teve um efeito terrível na sua frequência cardíaca.

Não que um colchão não possa ser pesado. Claro que pode. Mas este parecia desequilibrado. Estranhamente pesado de um lado. Como se algo dentro dele tivesse deslocado seu centro.

Você foi até a cozinha e pegou um estilete da gaveta de quinquilharias.

De volta ao quarto, você estava de pé sobre o colchão, lâmina na mão, pensando em como era ridícula. Que iria estragar um colchão caro porque seu casamento a deixara paranoica. Que em dez minutos estaria rindo de si mesma enquanto limpava uma toalha mofada que Miguel havia escondido por motivos estúpidos demais para justificar esse medo.

Você respirou apenas uma vez.

Então você corta.

O tecido resistiu a princípio, mas depois cedeu com um estalo longo e prolongado que pareceu muito alto para a casa vazia. Quase imediatamente, uma onda de fedor atingiu você com tanta violência que você cambaleou para trás. Era mais do que insuportável. Mais do que inabitável. Era podridão concentrada, presa na espuma, no tecido e no tempo.

Você cobriu a boca e tossiu até sua visão ficar turva.

"Oh meu Deus."

Sua mão tremia tanto que a lâmina quase escorregou. Apesar disso, você se obrigou a continuar. Outro corte. Depois outro, alargando a fenda. A espuma dentro parecia ligeiramente descolorida em um bolso perto do canto, umedecida uma vez e não completamente seca. Você a abriu com as duas mãos, respirando pela manga.

Então você viu o plástico.

Um grande saco industrial, bem compactado e enfiado no fundo de uma cavidade escavada na espuma.

Seus joelhos cederam tão rapidamente que você teve que se sentar no chão.

Durante três segundos inteiros, você ficou ali parado, olhando para o nada.

Todas as explicações absurdas acabaram aí. Nada de roupa de ginástica esquecida. Nada de mofo. Nada de comida para viagem derramada. Alguém tinha escondido alguma coisa no seu colchão. Não embaixo. Não ao lado. Dentro.

E Miguel sabia disso.

Você estendeu a mão para a sacola com os dedos dormentes.

Estava brilhando com a condensação e salpicado com manchas pretas de mofo em um dos lados. Lacrado com fita adesiva. Pesado. Ao ser movido, algo dentro chacoalhou abafado.

Seu primeiro pensamento foi dinheiro.

Seu segundo pensamento foi drogas.

Seu terceiro pensamento, indesejado e instantâneo, dizia respeito a partes do corpo.

No momento em que você retirou o primeiro pedaço de fita adesiva, você estava chorando sem nem perceber.

A sacola abriu com um som úmido e pegajoso.

Lá dentro, havia roupas.

Vestuário feminino.

Você recuou com tanta violência que quase bateu no criado-mudo.