Enquanto eu me recuperava do divórcio, minha ex-sogra cuspiu em mim:

A campainha tocou novamente.

Abri a porta o suficiente para que não parecesse um convite.

Rodrigo falou primeiro.

—Mariana.

Ele disse meu nome como se tivesse o direito de prová-lo depois de dez anos.

—O que você está fazendo aqui?

Olhei para Ofélia. Nunca imaginei vê-la assim: sem maquiagem impecável, usando um xale preto barato, com as mãos agarradas a uma bolsa velha. Mesmo assim, meu primeiro pensamento não foi pena. Foi instinto. Algo está errado.

Rodrigo engoliu em seco.

—Precisamos conversar com você.

"Não.
Eu ia fechar a porta, mas Ofélia deu um passo à frente. Seus olhos estavam vermelhos. Não sei se ela está chorando ou se não está dormindo. E então ela disse algumas palavras que, se alguém as tivesse dito para mim uma semana atrás, eu teria jurado serem impossíveis. Cuidados com o bebê e higiene."

-Por favor.

Não foi uma atuação elegante.

Foi um colapso.

Fiquei parado por um segundo.

Ximena já estava atrás de mim, em silêncio.

Ofélia a viu por cima do meu ombro, e seu rosto se fechou de uma maneira estranha. Como se estivesse olhando para um fantasma que ela mesma ajudara a matar, e que, no entanto, se tornara belo.

"Ela é igualzinha a você", murmurou ele.

Essa frase me deu ânsia de vômito.

"Não diga uma palavra sequer sobre a minha filha", disse ela.

Rodrigo fechou os olhos por um instante, como se já esperasse hostilidade e estivesse preparado para suportá-la.

—Não estamos aqui para brigar. Nós só vamos... explicar.

Olhei para Ximena.

Ela sustentou meu olhar e assentiu levemente com a cabeça, como quem diz: depende de você, eu estou bem.

Isso me deu forças.

Abri a porta o suficiente.

—Cinco minutos.

Eles entraram com aquele desconforto humilhante de quem se viu envolvido numa vida que antes desprezava, mas que agora precisava. Rodrigo olhou em volta com uma expressão difícil de decifrar. Talvez surpresa. Talvez cálculo. Talvez ambos. Nosso apartamento não era luxuoso, mas era cheio de ordem e aconchego. Havia plantas na janela, fotografias de Ximena em diferentes fases da vida, pilhas de livros, um abajur amarelo que deixava tudo mais acolhedor. Dava para perceber que ali viviam pessoas que se amavam.

Apontei para o sofá.

Eu não ofereci café a eles.

Eu não lhes ofereci água.

Nada.

Eles se sentaram. Ofélia o fez com uma rigidez nervosa. Rodrigo ficou de pé na beira da cadeira, com as mãos juntas, olhando para o chão por um segundo antes de falar.

—Camila morreu.

O nome me emociona até tarde.

Camila.

A outra mulher. A grávida. A única que disse "sim, ela ia lhe dar o filho". A escolhida. A suposta paz de Rodrigo. A sociedade, as pessoas e

Não ficamos satisfeitos.

Eu me sentia vazio.

-Quando?

—Há três meses —ele respondeu—. Câncer. Foi muito rápido.

Assenti com a cabeça lentamente.

Eu não sabia o que se esperava de mim. Condolências? Espanto? A cura de uma velha ferida? Nada disso aconteceu. A morte não desfaz o que uma pessoa fez em vida. Ela apenas congela.

"Eles tinham um filho, não é?", perguntei.

Ofélia levou uma mão trêmula à boca.

Rodrigo baixou a cabeça.

—Sim. Mateus.

Havia um.

O herdeiro.

O rapaz que me foi preterido.

Meu peito endureceu de uma forma estranha. Não pela criança. Não era culpa dela ter nascido naquela imundície. Mas o simbolismo era brutal demais.

—E o que isso tem a ver comigo? — perguntei.

Ofélia caiu em prantos.

Não com discrição. Não com dignidade controlada. Com aquele grito feio e estridente de alguém que demorou a entender as coisas essenciais.

"Ele tem leucemia", disse ele.

O ar da sala acabou.

Olhei para Rodrigo. Ele subiu, devastado.

"Leucemia mieloide aguda", disse ela, com a voz embargada. "Ele está hospitalizado há semanas. Precisa de um transplante. Já procuraram nos registros, nos doadores, em toda a família da Camila... não há compatibilidade."

Eu não entendi quando me ensinaram. Ou melhor, minha mente entendeu antes que meu corpo estivesse disposto a aceitar.

Minhas mãos congelaram.

Olhei para Ximena sem querer.

Rodrigo continuou falando, cada vez mais rápido, como se as palavras estivessem queimando sua boca.

— Fizeram testes em todos nós. Incompatível com soja. Nem minha mãe. Investigaram mais a fundo. Primos. Tios. Nada. E então o hematologista disse que os melhores candidatos costumam ser os meio-irmãos.

Agora entendi perfeitamente.

Senti náuseas.

Ofélia deslizou do sofá quase até os joelhos. Eu a observei descer e, por um segundo, não soube se estava sonhando. Aquela mulher que cuspiu na minha cara, dizendo que minha filha e eu podíamos viver ou morrer sem que eu me importasse, estava na minha sala de estar, ajoelhada no meu tapete barato, chorando.

"Ajude-nos", disse ele, surpreso. "Por favor. A menina pode salvar o irmão dela."

A menina.

Mesmo assim, ele não começou a chamá-la pelo nome.

Ximena ficou muito imóvel.

Mais silencioso que o normal.

Olhei para ela imediatamente. Não queria que mais nenhuma palavra chegasse aos seus ouvidos sem o meu filtro.

"Vá para o seu quarto, querida", disse ele.

Ela balançou a cabeça com uma calma que me surpreendeu.

 

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