Enquanto eu me recuperava do divórcio, minha ex-sogra cuspiu em mim:

—Não. Quero ouvir.

Rodrigo olhou para ela e, pela primeira vez em dez anos, realmente a observou.

Observei aquele momento com uma mistura de fúria e repulsa. Porque vi o verdadeiro choque em seu rosto. O choque de encontrar não a garotinha que ele havia escrito para ignorar no tribunal, mas um adolescente alto, inteligente e bonito sentado à sua frente como prova viva de tudo o que ele se recusara a ver. Psicologia

—Ximena… —disse ele, e o nome saiu desajeitadamente, como se fosse uma palavra estrangeira.

Ela não respondeu.
Ofélia, sim.

Ele rastejou um pouco mais, com as mãos juntas em súplica.

"Me perdoe. Me perdoe por tudo. Eu errei. Fui cruel. Tive azar. Mas aquela criança não tem culpa. Eu imploro, pelo amor de Deus, Mariana, diga a ele para fazer o teste."

Olhei para ela, sentindo todo o passado queimando em meu sangue.

Eu poderia dizer que naquela época ele era grandioso, sábio e espiritual.

Eu mentiria.

O que eu senti foi raiva. Psicologia

Uma fúria ancestral, densa e completa.

Eu queria gritar para ele que, quando eu não tinha leite para a Ximena, eles também não se importaram. Que quando minha filha teve bronquite e eu não dormi por quatro noites, ele não apareceu. Que quando eu aprendi a trabalhar com febre porque estava faltando ao trabalho e perdendo dinheiro, ninguém veio se ajoelhar para me consolar. Eu queria lembrá-lo de cada palavra, cada ato de desprezo, cada silêncio.

E, no entanto, acima de toda aquela fúria, havia algo mais.

Ximena.

Não, Matthew.

Não, Rodrigo.

Não, Ofélia.

Minha filha. Família

Tudo acontecia primeiro para ela.

"Levante-se do chão", eu disse em tom áspero.

Ofélia obedeceu imediatamente, limpando o rosto desajeitadamente.

Eu me virei para Ximena.

— Você quer ir para o seu quarto agora?

Ela negou novamente.

—Não. Eu quero saber.

Respirei fundo. Fui até ele e sentei ao seu lado. Peguei em sua mão.

—O que eles estão dizendo é que a criança da outra família deles está muito doente. E eles acham que podem ser compatíveis para ajudá-la.

Ximena olhou para nossas mãos fechadas.

—Ele é meu irmão?

A pergunta era tão clara que nos desestabilizou a todos.

Rodrigo começou a chorar em silêncio.

Eu não me importava.

"Biologicamente, sim", respondi claramente. "Mas isso não te obriga a fazer nada."

Ela olhou para mim.

—Você pode morrer?

Eu não queria decorá-lo.

-Sim.

Um longo silêncio pairou sobre a sala.

Ximena olhou para Rodrigo. Sustentou o olhar dele por alguns segundos. Não aguentou. Baixou os olhos como um homem que de repente se vê de fora e não gosta do que vê.

"Nunca me procurem", disse ela.

Rodrigo desabou completamente.

-Perder.

—Você nunca perguntou sobre mim.

-Perder.

—Você nunca quis me conhecer.

Ela enxugou o rosto desesperadamente.

—Não tenho desculpa.

E, pela primeira vez, eu acreditei. Não que eu me arrependesse profundamente. É que ele tinha ficado sem mentiras convincentes.

Ximena se virou para mim.

—Se eu disser sim, vai doer?

Expliquei o que eu sabia: que os estudos, a análise, a compatibilidade vinham em primeiro lugar; que, se fosse apropriado, haveria procedimentos médicos; que havia riscos, sim, mas também protocolos; que nada seria feito sem informação ou consentimento; que eu não deixaria ninguém tocá-la emocionalmente para forçá-la.

Ele ouviu tudo sem interromper.

Então ele me pediu algo que acabou me deixando louca.

—E se eu ficar doente por ajudar, eles virão atrás de mim?

Ninguém respondeu.

Não, Rodrigo.

Não, Ofélia.

O silêncio foi uma confissão mais brutal do que qualquer outra palavra.

Segurei o rosto da minha filha entre as minhas mãos.

—Sim, sim. Sempre.

Ela lentamente.

Então ele olhou para Rodrigo.

"Não estou fazendo isso por você", disse ele.

Rodrigo soluçou.

-Perder.

—Nem mesmo para ela.

Ofélia cobriu o rosto.

"Eu sei", disse ela também, com a voz embargada.

—Eu faria isso por ele. Porque ele não escolheu nascer nessa família.

A frase fez com que todos ficassem com os celulares na mão.

Fechei os olhos por um instante. O maior orgulho da minha vida não era nenhuma conquista profissional ou uma casa quitada. Era aquele momento. Compreender que a garota que eles queriam descartar por não ser um menino havia se tornado uma pessoa mais nobre do que todos os adultos que a desprezavam.

Não tomamos uma decisão naquela noite.

Eu nem ia permitir isso.

Eu disse a eles que obteríamos informações de nossos próprios médicos, não apenas deles. Que Ximena não assinaria nem faria nada sem apoio independente. Que qualquer pressão, manipulação ou chantagem deveria fechar essa porta para sempre. Rodrigo assentiu, sua docilidade quebrada, como alguém que não viera mais para negociar, mas para implorar.

Quando elas saíram, Ofélia olhou para Ximena novamente com lágrimas verdadeiras nos olhos.

"Eu nem sequer mereço que você me ouça", disse ele.

Ximena respondeu com uma frieza que eu nunca tinha visto nela antes:

—Não. Mas eu ouvi você.

Fechei a porta atrás deles e senti minhas pernas tremerem.

Não dormimos muito naquela noite.

Ximena subiu na minha cama, assim como fazia quando criança e tinha pesadelos. Ela era quase da minha altura, mas em certos momentos de dor, uma filha ainda é uma criança em busca de refúgio.

— O que você faria? — ele me perguntou na escuridão.

Pensei muito antes de responder.

—Seja qual for a sua decisão, eu cuidarei disso. Mas, se você me perguntar... eu não deixaria o ódio deles te transformar em alguém que você não é.

Ela permaneceu em silêncio.

 

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