Então ele murmurou:
—Não quero que uma criança morra por causa de adultos horríveis.
Eu a abracei com mais força.
—Então você saberá quem você é.
Os testes começaram uma semana depois.
Fomos a outro hospital, com outro hematologista, outro consultor. Eu queria proteger minha filha não só medicamente, mas também moralmente. Ninguém a colocaria numa maca sem que ela entendesse o que estava acontecendo. Ninguém usaria a palavra "deveria" como arma. E Rodrigo, pela primeira vez na vida, respeitou os limites sem questionar.
A compatibilidade foi alta.
Muito alto.
O suficiente para os médicos afirmarem que Ximena era a melhor opção disponível.
Ali, começou outra batalha.
Não relacionado à área médica.
Humano.
Porque Ofélia rapidamente associou "obrigada" a "correto". Ela começou a enviar mensagens em horários estranhos, perguntando se Ximena já estava tomando vitaminas, se podia vê-la, se Mateo queria conhecer "sua irmãzinha". Na primeira vez, deixei passar. Na segunda, ela respondeu claramente. Na terceira, bloqueei.
Rodrigo, por outro lado, mudou de uma forma que me foi difícil de interpretar. Ele não se tornou bom de repente. A vida não funciona assim. Mas o medo de perder o filho e a vergonha de precisar da filha que abandonou o deixaram sem ego suficiente para agir como antes. Ele chegava aos compromissos em silêncio, pagava o que devia sem discutir e evitava qualquer gesto que parecesse exigir proximidade. Ximena o tratava com uma polidez distante que era mil vezes mais cruel do que um insulto.
Certa tarde, após uma consulta, Mateo quis conhecê-la.
Eu não tinha certeza.
Ximena disse que sim.
Ela entrou no quarto do hospital com uma serenidade que eu não sei de onde vinha. Mateo tinha oito anos, era pálido, magro, e começava a perder cabelo por causa dos tratamentos. Quando a viu, sua voz transbordou uma timidez luminosa.
—Você é Ximena?
Ela está aberta.
-Sim.
—Meu pai diz que você é minha irmã.
Ximena me lançou um olhar de soslaio, como se pedisse permissão para sentir o que quer que estivesse prestes a sentir. Eu apenas assenti.
Mateo estende uma mão magra, coberta de hematomas causados pelas agulhas.
—Gosto de você porque você não parece estar com raiva.
O rosto da minha filha se desfez pela primeira vez.
Ele não estava chorando. Mas eu vi o esforço.
—Não estou zangado com você.
Ele sorriu novamente.
—Excelente. Minha avó passa o tempo chorando.
Ximena deu uma risadinha passageira.
Naquele momento, compreendi algo essencial: o menino não era herança de Rodrigo. Era apenas uma criança assustada e doente, presa numa história podre que não escolhera. Minha raiva em relação aos adultos permanecia intacta. Mas, com ele, não havia mais espaço para aspereza.
O procedimento ocorreu semanas depois.
Não foi fácil. Houve exames, restrições, medos, formulários de consentimento. Ximena suportou tudo com uma maturidade que me assustou um pouco, porque às vezes ela parecia madura demais para a idade. Fiquei ao lado dela durante cada exame, cada injeção, em cada noite anterior, quando o medo se insinuava por baixo da porta.
Na noite anterior ao procedimento, ele me disse:
-Mãe.
-Sim?
—Você acha que eles vão gostar de mim agora?
A pergunta me desestabilizou.
Aproximei-me e segurei seu rosto entre minhas mãos.
"Não faça isso por amor. O verdadeiro amor não se compra com sangue, sacrifício ou salvando a vida de ninguém. Se algum dia eles te amarem, que seja porque te conheceram no final da vida e entenderam o que perderam. Mas você não está aqui para conquistar um lugar. Você já o tem. Comigo. Para sempre."
Então ele chorou.
Devagar.
Eu também.
O transplante correu bem.
Não sem dor, não sem pequenas complicações, não sem aquela tensão insuportável dos dias seguintes, em que cada resultado parecia uma sentença de morte. Mas tudo acabou bem. Os médicos estavam cautelosamente otimistas. Mateo reagiu. Seu corpo cooperou. Havia esperança real.
Foi então que aconteceu algo que eu não havia previsto.
Rodrigo veio me ver a sós.
Não há hospital. Por causa do meu trabalho.
Ele pediu permissão na recepção e esperou lá embaixo até eu sair. Encontrei-o na sala de espera de uma das clínicas, sentado de forma desajeitada com as mãos entre os joelhos, como um homem que não pertencia àquele lugar.
"O que você quer?", perguntei.
Ele se levantou.
Ele estava mais magro, muito mais abatido. Não por causa de sua nobreza. Por causa do colapso.
-Obrigado.
Eu não respondi.
Ele engoliu.
"Não há maneira digna de dizer isso, então vou dizer da pior maneira possível. Eu arruinei minha vida quando os deixei ir."
Continuei a observá-lo em silêncio.
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