PARTE 1
—Não conte para a Valéria que o bebê se parece com o Diego… ainda.
Valeria permanecia imóvel em frente à porta entreaberta do quarto 312, na ala de maternidade do Hospital Ángeles, em Puebla, com uma bolsa azul pendurada no pulso e um buquê de margaridas brancas pressionado contra o peito.
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Ele chegou sorrindo.
Dentro da sacola havia bodies de recém-nascido, uma manta bordada com estrelas e um ursinho de pelúcia que ela havia comprado em Angelópolis porque sua irmã mais nova, Mariana, não conseguia dormir quando criança sem ter um urso nos braços.
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Naquela manhã, Valeria Torres ainda acreditava em sua família.
Ela acreditava que Diego Salazar, seu marido, trabalhava até tarde porque a construtora onde ele era gerente financeiro o explorava ao máximo com fechamentos de negócios, auditorias e reuniões intermináveis.
Ela acreditava que sua mãe, Lourdes, era fria e distante porque o luto emocional de um casamento repleto de ausências a havia endurecido.
Acredito que Mariana escondeu o nome do pai do seu bebê por vergonha, medo ou simplesmente teimosia.
E, acima de tudo, ela acreditava que seu casamento estava desgastado, mas não morto.
Diego saiu de casa às 8h20 da manhã, impecavelmente vestido com um terno cinza, exalando perfume caro e aroma de café fresco. Ele beijou a testa dela enquanto ela arrumava o presente.
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—Eu adoraria ter ido com você, meu amor, mas eles mudaram a reunião com os sócios.
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Valéria olhou para ele com ternura.
—Não se preocupe. Vou dizer à Mariana que você mandou abraços.
Diego sorriu.
—Diga a ela que espero que ela e o bebê estejam bem.
Nem uma pausa. Nem uma piscadela estranha. Nem uma falha na voz.
Por isso, quando Valeria ouviu a risada dele no quarto 312, o mundo não desmoronou de repente. Primeiro, ficou em silêncio. Depois, começou a desmoronar aos poucos.
—Valeria ainda acredita que minhas noites sem dormir são por causa do projeto Querétaro—, disse Diego. —Na semana passada, ela só depositou dinheiro de volta na conta do tratamento, pensando que ainda íamos tentar.
Valeria sentiu os dedos ficarem gelados.
Então sua mãe falou.
—Deixe-a acreditar no que quiser, contanto que mantenha a calma. Você e Mariana já têm um filho. Valeria sempre foi mais provedora do que beneficiária.
A bolsa azul cortou a pele do pulso dela.
Mariana suspirou, com uma doçura que soava cruel.
"Quando ela vir o bebê, vai entender que Diego e eu fomos feitos um para o outro. Ela nunca teve a oportunidade de lhe dar uma família."
Diego riu novamente.
"Ela tem os meus olhos. Ninguém poderá negar quando a foto for tirada."
Valéria não chorou.
Ela permaneceu ali, atrás da porta, ouvindo as três pessoas que mais amara falarem sobre sua vida como se ela fosse uma conta bancária com pulso.
Ela baixou o buquê lentamente.
A poucos passos de distância havia uma lata de lixo de metal. Valeria colocou as margaridas dentro dela em silêncio. Depois, tirou o ursinho de pelúcia da sacola, olhou para ele uma última vez e o colocou de volta.
Ele não entrou.
Ele não gritou.
Ele não perguntou nada.
Ela se virou e caminhou pelo corredor branco enquanto uma enfermeira lhe sorria, sem saber que acabara de passar por uma mulher cuja confiança havia sido assassinada.
Mas antes de chegar ao elevador, Valeria enfiou a mão na bolsa e tocou no pequeno gravador que havia ligado acidentalmente ao sair de casa.
E então ela entendeu que o que acabara de ouvir não só a destruiria.
Ele também poderia destruí-los.
PARTE 2
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