Valéria preparou frango assado, batatas com alecrim, salada de vagem e uma jarra de água de hibisco. Ela queria um jantar simples, quase em estilo familiar, porque as maiores traições ficam mais feias quando aparecem em pratos limpos e guardanapos dobrados.
Mariana chegou com o bebê enrolado em uma manta cor creme. Ela estava linda, cansada, protegida por aquela fragilidade que algumas pessoas usam como escudo. Lourdes entrou logo atrás, carregando a bolsa de fraldas, dando pequenas instruções e arrumando tudo como se estivesse em sua própria casa.
Diego chegou por último, vindo diretamente do escritório, afrouxando a gravata.
Ela sorriu ao ver o bebê.
Não como um tio.
Não como um homem bondoso.
Como um pai.
Valéria o observou inclinar-se em direção ao bebê conforto com uma ternura que ele nunca demonstrara a nenhuma criança em público. Aquele gesto a magoou mais do que qualquer palavra.
Ernesto sentou-se ao lado de Valeria.
Ele não cumprimentou Lourdes com um beijo.
Ela percebeu, mas não disse nada.
Durante o jantar, Mariana comentou que o bebê quase não estava dormindo. Lourdes riu alto demais. Diego perguntou se o bebê tinha tomado a fórmula corretamente. Valeria ouviu cada frase com uma calma mais perturbadora do que um grito.
Finalmente, Diego olhou para ela.
—Você esteve muito quieto hoje.
Valéria colocou os talheres no prato.
—Eu estive ouvindo.
Ela pegou um envelope de papel pardo da cadeira ao lado e o colocou perto do prato de Diego.
—Abra.
Diego sorriu, hesitante.
-O que é isso?
-A verdade.
Ele levantou a lapela.
Dentro da caixa estavam o pedido de divórcio, extratos bancários, comprovantes de transferências, conversas impressas e uma foto do saldo zero na conta de fertilização.
Diego perdeu a cor do rosto.
Mariana deixou cair o garfo.
Lourdes enrijeceu.
—Valéria —disse Diego, baixando a voz—, não é assim que se fala disso.
Ela pegou o celular e apertou o play.
A voz de Diego ecoou pela sala de jantar.
—Valeria ainda acredita que minhas noites sem dormir são por causa do projeto Querétaro. Semana passada mesmo ela começou a depositar dinheiro de volta na conta do tratamento, achando que ainda íamos tentar.
Mariana soltou um gemido.
Lourdes sussurrou:
—Desligue isso.
O áudio continuou.
"Deixe-a acreditar no que quiser, contanto que se mantenha calma", disse a voz de Lourdes. "Você e Mariana já têm uma filha. Valeria sempre foi mais provedora do que receptora."
Ernesto se levantou.
A cadeira arrastou o chão como um trovão.
—Lourdes, diga-me que essa não é a sua voz.
Lourdes abriu a boca, mas o orgulho venceu a vergonha.
—Você não sabe como era estar aqui enquanto você estava fora.
Ernesto olhou para ela como se a tivesse acabado de conhecer.
—Parece que hoje estou entendendo tudo.
Diego atirou os papéis sobre a mesa.
—Você me gravou?
Valéria sustentou o olhar dele.
—Gravei o exato momento em que meu casamento parou de fingir que estava vivo.
Mariana abraçou o bebê.
—Não tínhamos a intenção de te magoar.
Valeria soltou uma risada seca.
—Eles planejaram consultas médicas, pagamentos, mentiras, reuniões falsas e toda uma vida pelas minhas costas. Não me insulte dizendo que eles não planejaram nada disso.
O maxilar de Diego se contraiu.
—Tenha cuidado. Você não sabe o quão caro um divórcio pode ser.
Nesse instante, Renata saiu do corredor.
Diego empalideceu.
—O que ela está fazendo aqui?
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