"É. Uns bem pesados. Eu nem devia falar em voz alta."
"Tenta."
Ela riu, satisfeita por eu ter perguntado, e listou dois apelidos. Eu conhecia os dois. Eu já tinha ouvido as duas coisas: sussurros atrás de mim na aula de química, gritos no refeitório, rabiscos em um armário.
Ela tomou um gole de vinho, satisfeita consigo mesma.
"Isso parece cruel com ele", eu disse, com a voz firme.
"Ah, por favor. Ele provavelmente ainda mora no porão da mãe." Ela tomou outro gole de vinho, satisfeita consigo mesma.
Dei a ela mais uma chance.
Perguntei se ela já havia se perguntado o que tinha acontecido com ele. Se ela já havia pensado que talvez as piadas tivessem atingido mais forte do que ela pretendia.
"Sinceramente?" Ela deu de ombros. "Crianças são crianças. Ele precisava amadurecer."
A garçonete passou e encheu nossos copos de água. Ela me deu um sorriso pequeno e gentil que não tinha nada a ver com nada, e de alguma forma me acalmou mais do que o vinho.
Coloquei meu copo na mesa devagar.
Madison se inclinou para frente novamente. "Bem, chega de história antiga. Conte-me mais sobre sua empresa. Aliás, li aquela matéria na revista. Muito impressionante."
Coloquei meu copo na mesa devagar.
"A revista", eu disse.
"Hum-hum. Na verdade, foi assim que eu... bem..." Ela riu, sem jeito, como se estivesse ensaiando. "Ok, confesso. Quando você mencionou o nome da empresa na nossa conversa, eu pesquisei. Vi a matéria. Há tempos quero entrar nesse ramo. Pensei que talvez, sabe, pudéssemos conversar."
"Então isso foi uma entrevista de emprego."
Lá estava. O calor humano. As perguntas ponderadas. O "Sinto como se te conhecesse há anos." Tudo costurado em uma proposta de vendas que eu quase confundi com interesse.
"Então isso foi uma entrevista de emprego", eu disse.
"Não, não, não foi isso." Ela estendeu a mão por cima da mesa e tocou meu pulso. "Estou gostando muito de você. É que... pensei, por que não os dois?"
"Ambos", repeti.
"Você é bem-sucedida. Você é gentil. Parece ser o tipo de pessoa que gosta de ajudar os outros." Ela sorriu, um sorriso suave e ensaiado. "E eu bem que poderia usar uma mãozinha agora. Isso não é crime, é?"
Inclinei-me para a frente e repeti os apelidos para ela. Palavra por palavra.
Olhei para ela. Olhei de verdade. Os mesmos olhos que riram de mim do outro lado do refeitório doze anos atrás, em um rosto que havia aprendido novos truques, mas conservado os velhos instintos.