Meses depois, ele tentou contestar o testamento, mas perdeu. O tabelião, os médicos, as cartas e as gravações de áudio que Dom Ernesto havia feito antes de morrer provaram que ele estava plenamente consciente. Em uma dessas gravações, com sua voz lenta, porém clara, ele disse:
"Eles não estão tirando nada de mim. Estou devolvendo um pouco do que uma boa moça me deu quando minha própria casa estava ficando vazia."
Essa gravação se tornou a palavra final.
Mateo recebeu todo o tratamento. Sua saúde melhorou aos poucos. Não foi um milagre da noite para o dia; houve recaídas, medo, noites no hospital e lágrimas. Mas, pela primeira vez, a família não encarou cada conta como uma sentença de morte.
Valéria terminou o curso de enfermagem.
Rosa parou de fazer turnos duplos.
Cecília começou a visitar o pai todos os domingos, mesmo ele já não estando mais lá. Não para conversar, mas para aprender a pedir perdão em silêncio.
E Jimena, a neta de verdade, apareceu uma tarde na casa branca em Coyoacán. Chegou usando óculos escuros, carregando uma bolsa cara e com uma culpa que não sabia como esconder.
Valéria estava sentada na varanda, na cadeira de balanço favorita de Dom Ernesto.
Jimena estava parada no pé da escada.
"Você é a Valéria?"
"Sim."
"Minha mãe me contou tudo."
Valéria não respondeu.
Jimena olhou para a casa, a buganvília, a vitrine com a bandeira dobrada.
"Pensei que tivesse tempo", disse ela, com a voz embargada. "Eu sempre achei que ele voltaria um dia."
Valéria baixou o olhar.
"Ele também achava."
Jimena chorou em silêncio.
Por um instante, Valéria quis odiá-la. Quis dizer que ela havia chegado tarde demais. Que nenhum pedido de desculpas poderia preencher todos os domingos vazios que Dom Ernesto deixara para trás.
Mas ela se lembrou da voz do velho:
"Até os corajosos se cansam, minha filha."
Então, ela simplesmente disse:
"Você pode se sentar um pouco, se quiser."
Jimena subiu até a varanda e sentou-se no degrau.
Nenhuma das duas falou por vários minutos.
O vento agitava as buganvílias.
A casa parecia respirar.
Três anos se passaram desde então.
Mateo agora tem 17 anos. Ele continua seus estudos, joga futebol quando o corpo permite e, todo dezembro, leva flores ao túmulo de Dom Ernesto.
Valeria trabalha em um hospital público e, quando vê uma família desesperada com uma conta impossível, lembra-se exatamente de como é estar do outro lado da mesa.