Por isso, ela escuta um pouco mais.
Ela explica as coisas um pouco melhor.
Ela passa um pouco mais de tempo com ele do que pedem.
Todo domingo, depois do seu turno, ela dirige até a casa branca em Coyoacán. Cecilia ainda é dona da propriedade, mas deixou a varanda, os vasos de flores e a cadeira de balanço intactos.
Valéria senta-se lá com duas conchas de baunilha e uma cafeteira.
Uma concha para ela.
Uma para ele.
Ela conta a ele sobre Mateo. Sobre Rosa. Sobre seus pacientes. Sobre as vezes em que ainda tem medo. Sobre as vezes em que consegue seguir em frente.
Às vezes, quando o vento sopra entre as árvores, ela jura que ouve aquela voz rouca perguntando:
"E como está seu irmãozinho?"
Então Valéria sorri, olha para a buganvília e responde suavemente:
"Ele está bem, vovô. Ele está bem agora."
E mesmo que ninguém mais ouça, ela sente que Dom Ernesto já sabe.
Porque aquele cego enxergou com mais clareza do que todos os outros: que família nem sempre se resume a laços de sangue.
Às vezes, chega um domingo, encharcado pela chuva, carregando uma mentira na garganta e uma saudade no coração.
E se ela decide ficar quando não há mais dinheiro envolvido, então talvez nunca tenha sido uma mentira.
Talvez tenha sido apenas o começo de um amor que ninguém esperava.