Fui contratada para visitar um veterano cego e solitário todos os domingos, fingindo ser sua neta. Mas, após sua morte, seu advogado olhou para mim atentamente e disse: "Antes de morrer, ele deixou uma última instrução a seu respeito."

Naquela mesma manhã, Valeria procurou empregos online.

Cuidar de cachorros.

Dar aulas particulares.

Limpar apartamentos.

Até que um anúncio a fez parar.

"Procura-se uma jovem entre 20 e 25 anos para acompanhar um idoso cego aos domingos. Remuneração generosa. Deve estar disposta a agir como um membro próximo da família."

Valéria achou que era um golpe. Então ela leu o resto.

O nome do homem era Ernesto Aguilar. Ele havia sido sargento no Exército Mexicano. Perdera a visão anos antes. Sua neta de verdade não o visitava há muito tempo por causa de uma briga familiar, mas ele continuava perguntando por ela.

A família queria contratar alguém para “preencher esse vazio”.

Valéria achou cruel.

Quase fechou a página.

Então, virou-se para a conta do hospital de Mateo.

E escreveu.

Uma semana depois, conheceu Cecilia, a filha de Dom Ernesto. Era uma mulher elegante, por volta dos 50 anos, com olheiras profundas e uma culpa que não sabia onde depositar.

“Meu pai mora sozinho em Coyoacán”, explicou ela. “Tem uma mulher que o ajuda durante a semana, mas fica deprimido aos domingos. Minha filha Jimena parou de visitá-lo há quatro anos. Ele acredita que ela voltará algum dia.”

Valéria engoliu em seco.

“E você quer que eu finja ser ela?”

Cecília baixou o olhar.

“Não exatamente ela. Uma neta. Alguém que fale com ele gentilmente, que coma com ele, que o faça sentir-se amado.”

“Isso é mentir para ele.”

“Sim”, disse Cecília, sem se defender. “Mas às vezes uma mentira gentil dói menos do que uma verdade abandonada.”

Valéria quis se levantar. Quis dizer não. Quis ao menos preservar aquela parte inocente de si mesma.

Mas pensou em Mateo tentando sorrir após cada tratamento.

“Quanto você cobra?”

O valor a fez fechar os olhos.