Fui contratada para visitar um veterano cego e solitário todos os domingos, fingindo ser sua neta. Mas, após sua morte, seu advogado olhou para mim atentamente e disse: "Antes de morrer, ele deixou uma última instrução a seu respeito."

Com quatro domingos, ela conseguiria cobrir uma consulta importante.

Ela aceitou.

No primeiro domingo, chegou tremendo a uma casa branca com fachada antiga, buganvílias roxas, vasos de barro e uma bandeira mexicana dobrada dentro de uma vitrine ao lado da sala de estar.

Bateu na porta.

Dom Ernesto abriu a porta quase imediatamente.

Ele era alto, magro, com cabelos completamente brancos e óculos escuros. Não enxergava bem, mas sorria como se a tivesse esperado a vida toda.

"Você está aqui, minha filha."

Valéria sentiu algo se quebrar dentro dela.

"Olá, vovô", disse ela.

A palavra soou como um roubo.

Mas Dom Ernesto estendeu a mão, encontrou a dela e a apertou com uma ternura que a desarmou.

"Entre. Já arrumei a mesa. Fiz café, mesmo que digam que é horrível."

Aquele primeiro domingo durou quatro horas. Dom Ernesto contou-lhe sobre sua esposa, Mercedes, sobre seus anos no quartel, sobre uma viatura que quebrou em Sonora, sobre como aprendeu a dançar danzón para conquistar a mulher que amou por 52 anos.

A cada vez que mencionava Mercedes, sua voz parecia mais jovem.

"Sua avó costumava dizer que eu era um burro de uniforme", ele riu. "E ela tinha razão."

Valéria sorriu genuinamente pela primeira vez em semanas.

Ao sair, Cecília a esperava do lado de fora, em sua caminhonete.

"Como foi?"

Valéria olhou para a casa.

"Ele é muito simpático."

Cecília assentiu, mas não respondeu.

Os domingos se arrastavam.

E o que começara como uma tarefa árdua começou a incomodar.

Porque Dom Ernesto se lembrava de tudo o que Valéria dizia. Das provas dela. Dos turnos da mãe. Do nome de Mateo. Até mesmo que ela gostava de conchas de baunilha e não de chocolate.

Um domingo, enquanto comiam sopa de macarrão, ele perguntou:

"E como está seu irmãozinho?"
Valéria ficou imóvel.

Ela não se lembrava de ter lhe contado tanta coisa.

"Esta semana foi difícil", admitiu. "Mas ele não quer que nos preocupemos."

Dom Ernesto estendeu a mão para ela, que estava sobre a mesa.

"Até os corajosos se cansam, minha filha. Não o deixe carregar tudo sozinho."

Valéria teve que desviar o olhar para não chorar.

A farsa deixou de parecer uma atuação e começou a parecer um castigo.

Até que, certa tarde, ao sair de casa, ouviu vozes altas vindas da sala de jantar. Cecília discutia com dois parentes de Dom Ernesto.