Fui contratada para visitar um veterano cego e solitário todos os domingos, fingindo ser sua neta. Mas, após sua morte, seu advogado olhou para mim atentamente e disse: "Antes de morrer, ele deixou uma última instrução a seu respeito."

"Você ainda está pagando aquela moça?", perguntou um homem. "Papai é velho, não burro."

"Fale mais baixo, Ignacio."

"Não. Aquela moça não é da família. É uma funcionária disfarçada de neta."

Valéria congelou no corredor.

Então ela ouviu outra mulher dizer:

"Bem, o velho deve aproveitar enquanto pode." Assim que ela morrer, aquela moça desaparece e nós resolvemos a questão da casa.

Valéria sentiu um frio brutal no estômago.

Mas o pior ainda estava por vir.

Dom Ernesto apareceu na porta da sala de jantar, apoiado em sua bengala, o rosto pálido.

"O que disseram sobre a casa?"

Ninguém respondeu.

E Valéria entendeu, horrorizada, que ele tinha ouvido tudo.

PARTE 2

Dom Ernesto ficou em silêncio por alguns segundos. A bengala tremia levemente sob sua mão, mas sua voz saiu firme.

"Perguntei o que disseram sobre a minha casa."

Ignacio, seu filho mais novo, pigarreou.

"Nada, pai. Estávamos falando de documentos."

"Não me trate como se eu fosse deficiente", respondeu Dom Ernesto. "Sou cego, não idiota."

Valéria queria desaparecer. Sentia-se culpada, suja, parte de uma mentira que acabara de explodir diante de todos.

Cecília aproximou-se do pai.

"Pai, por favor, não se aborreça."

"Ela também sabia?" perguntou Dom Ernesto, apontando para Valéria.

Ninguém respondeu.

Valéria abriu a boca, mas não conseguiu dizer nada. Sua garganta fechou.

Ignacio soltou uma risada seca.

"Claro que ela sabia. Nós a pagamos, não pagamos? Ou vocês pensaram que ela estava lá apenas para receber carinho?"

Aquela frase foi como um tapa na cara.

Valéria sentiu as pernas fraquejarem.

Dom Ernesto virou-se para encará-la.

"É verdade?"

Valéria queria mentir novamente, mas não conseguiu.

"Sim", sussurrou. "No começo, sim."

Cecília começou a chorar.

"Pai, eu só queria que você soubesse que não estava sozinho." — E foi por isso que você comprou afeto por hora?

— Não foi assim.

— Sim, foi assim mesmo — disse Valéria, com a voz embargada. — Eu concordei porque precisava de dinheiro para o tratamento do meu irmão. Não tenho desculpa. Me desculpe.

Ignacio bateu palmas uma vez, em tom de deboche.

— Veja só que comovente. A neta alugada tem o seu próprio drama.

Dom Ernesto levantou a mão.