Ninguém consegue fingir afeto por tantos domingos sem se cansar.
Valéria não se cansou.”
Cecília agora chorava abertamente.
Inácio bateu com o punho na mesa.
“Isso é um absurdo. Papai estava sendo manipulado.”
O advogado ergueu o olhar.
“Estou avisando que a carta foi autenticada e acompanhada de um laudo médico confirmando que Dom Ernesto estava plenamente lúcido.”
Ignacio ficou vermelho.
“Aquela garota se aproveitou de um velho cego.”
Valéria finalmente falou.
“Eu não pedi nada a ele.”
“Mas você veio correndo quando o advogado a chamou, não foi?”
Valéria se levantou.
“Eu vim porque ele me queria aqui. E se ele acha que pode me humilhar, que o faça. Já ouvi coisas piores de você na sua própria casa.”
Ignacio abriu a boca, mas Cecília o interrompeu.
“Cale a boca, Ignacio.”
Todos a encararam.
Cecília, tremendo, enxugou as lágrimas.
“Fui eu quem contratou a Valeria. Fui eu quem tomou aquela decisão covarde porque não sabia olhar meu pai nos olhos e admitir que minha filha não queria voltar. Mas a Valeria fez o que nenhum de nós fez.” Ela ficou.
O advogado retomou a leitura da carta:
“Família nem sempre é medida por sobrenomes. Às vezes, o sangue só mostra de onde viemos, não quem escolhe estar conosco quando não temos mais nada a oferecer.
É por isso que deixo meu testamento claramente declarado:
Uma parte dos meus bens será destinada a um fundo fiduciário para cobrir os tratamentos médicos e a futura educação de Mateo Torres, irmão mais novo da Valeria. Esse fundo será chamado de Fundo Segunda Chance.”
Valéria sentiu as pernas fraquejarem.
“Não”, ela sussurrou. “Não pode ser.”
O advogado olhou para outro documento.
“O fundo contém 3.800.000 pesos.”
Rosa, que acompanhava Valeria e esperava em silêncio junto à porta, soltou um soluço. Valeria virou-se para ela e elas se abraçaram como se finalmente pudessem respirar depois de anos submersas.