PARTE 3
"Para minha família:
Se Valeria estiver sentada nesta sala, quero que todos a observem atentamente antes de julgá-la.
Sim, eu sabia que ela não era minha neta biológica.
Eu sabia desde o primeiro domingo."
O escritório ficou tão silencioso que o ar-condicionado zumbia.
Valéria prendeu a respiração.
Cecília cobriu a boca com a mão.
Ignacio se remexeu desconfortavelmente na cadeira.
O advogado Ramiro Salcedo continuou a leitura em tom firme:
“A cegueira não me roubou a memória. Nem a dignidade. Jimena, minha neta de verdade, andava diferente. Falava diferente. Entrava em casa olhando para o celular e saía olhando para o relógio.
Valéria entrou com medo, sim. Mas também entrou com respeito.
Desde o primeiro dia, eu sabia que havia uma mentira. O que eu não sabia era que, dentro dessa mentira, eu encontraria uma verdade que meu próprio sangue me negava há anos.”
Valéria começou a chorar, mas desta vez não baixou a cabeça.
O advogado continuou:
“No início, permiti o engano porque estava sozinho. Porque os domingos eram mais longos que qualquer guerra. Porque, depois que Mercedes morreu, esta casa ficou cheia de vozes antigas e cadeiras vazias.
Mas, depois de algumas semanas, Valéria parou de fingir.
Ela não me visitava por obrigação. Ela me ouvia. Ela me repreendia quando eu não bebia água. Ela me trazia pão doce, mesmo sabendo que o médico proibia. Ela conversava comigo sobre seus exames, sua mãe, seu irmão Mateo e aquele medo que carregava como se fosse maior do que realmente era.