Fui contratada para visitar um veterano cego e solitário todos os domingos, fingindo ser sua neta. Mas, após sua morte, seu advogado olhou para mim atentamente e disse: "Antes de morrer, ele deixou uma última instrução a seu respeito."

Valéria lhe contava tudo. Dom Ernesto ouvia. Às vezes, a repreendia como um avô. Às vezes, ria até tossir. Às vezes, pedia que ela lesse cartas antigas de Mercedes.

Mas sua saúde começou a piorar rapidamente.

Primeiro, ele parou de ir até o pátio.

Depois, parou de descer as escadas.

Então, as ambulâncias chegaram.

Numa quinta-feira à noite, Cecília ligou para Valéria.
"Ele está perguntando por você."

Valéria correu para o hospital.

Dom Ernesto estava em uma cama, a pele mais fina e a voz quase rouca. Quando ela pegou sua mão, ele sorriu.

"Minha neta está aqui."

Valéria chorou inconsolavelmente.

"Estou aqui, vovô."

Ele apertou seus dedos.

"Prometa-me uma coisa."

"Qualquer coisa."

"Quando eu partir, não deixe que te convençam de que o amor que você deu foi falso só porque começou com uma mentira."

Valéria não conseguiu responder.

Três dias depois, Dom Ernesto morreu.

No funeral, a família a olhou como se fosse uma intrusa. Ignacio chegou a murmurar em voz alta o suficiente para que ela ouvisse:

"Vamos ver se agora ela também cobra por chorar."

Valéria cerrou os dentes e sentou-se no fundo.

Uma semana depois, ela recebeu um telefonema do advogado Ramiro Salcedo.

"Senhorita Valeria Torres, preciso que a senhora venha ao meu escritório. Dom Ernesto Aguilar deixou uma instrução final a seu respeito."

Valéria sentiu como se o mundo estivesse desmoronando ao seu redor.

Quando chegou, a sala estava cheia de parentes.

Ignacio sorriu maliciosamente.

"Veja só. Até a neta que eles adotaram veio."

Então o advogado abriu uma pasta cinza e disse:

"Antes de morrer, Dom Ernesto deixou uma carta que precisa ser lida em voz alta para todos."

E a primeira coisa que a carta dizia fez o sorriso de todos desaparecer.