Leo parecia perplexo.
"O que você quer dizer?"
Olhei em direção à janela da cozinha.
"Quando eu tinha 16 anos, seu avô tinha acabado de falecer. Você nunca o conheceu. Você só o conhece por fotos."
Fiz uma pausa.
"Depois da morte dele, parei de falar. Quase não dormia. Quase não sorria. Meus amigos não sabiam o que dizer. A maioria deles foi se afastando aos poucos."
"Mas não Daniel."
"Ele costumava sentar-se ao meu lado todos os dias na hora do almoço."
"Todos os dias."
"Ele me dava metade do sanduíche dele porque sempre pegava demais."
"Ele me contava piadas sem graça até eu rir."
"Ele nunca me pediu para parar de ficar triste. Ele simplesmente se recusou a me deixar ficar triste sozinha."
Uma lágrima rolou pela minha bochecha.
"Ele me salvou."
Leo estava me encarando.
"Eu não sabia disso."
"Eu sei."
"Nunca contei a ninguém."
Meti a mão mais para dentro da caixa e tirei outra fotografia.
Daniel estava ao meu lado em uma feira escolar.
Nós dois estávamos rindo.
Ele adorava basquete, cachorros e, sem querer, chamava todos os professores de "Treinador".
Eu sorri.
"Ele era a pessoa mais gentil que eu já conheci."
Leo baixou os olhos.
Então ele perguntou em voz baixa:
"Então... o que aconteceu?"
Respirei fundo e devagar.
"Os alunos populares não gostavam que fôssemos amigos. Eles me perguntavam por que eu estava perdendo meu tempo. Eles imitavam o jeito que o Daniel falava."
"Eles riam sempre que ele respondia a uma pergunta."
Leo se mexeu, sentindo-se inquieto.
Eu percebi isso.
Continuei.
"Daniel nunca percebeu."
"Ou talvez ele tenha fingido que não."
"De qualquer forma... Ele estava sempre sorrindo."
Peguei a pulseira da amizade.
"Ele fez isso para mim. Levou quase duas semanas. Ele estava muito orgulhoso disso."
Enrolei-o nos meus dedos.
"Numa sexta-feira, depois da aula, eu estava com um grupo de garotas, aquelas que todo mundo queria impressionar. Elas eram as que riam mais alto. As pessoas as seguiam."
"Um deles apontou para o outro lado do estacionamento. Era o Daniel."
"Ele me viu."
"Ele sorriu."
"Ele começou a caminhar em nossa direção."
Minha voz travou.
"Eu sabia o que ia acontecer."
Leo murmurou: "O quê?"
"Eles começaram a rir antes mesmo de ele chegar até nós."
"Este é o seu namorado."
"Peça-lhe em casamento."
"Talvez ele ensine seus filhos a falar."
Olhei para a mesa.
"Eu deveria ter ido embora."
"Eu deveria ter mandado eles pararem."
"Eu deveria ter ido ver o Daniel."
Em vez disso, sussurrei: "Eu ri."
Leo baixou os olhos.
"Não foi uma gargalhada alta. Não foi alta. Durou talvez dois segundos. Mas Daniel ouviu."
Fechei os olhos.
"Eu vi o sorriso dela desaparecer."
"Ele olhou para mim."
"Nem com raiva, nem confuso. Apenas... magoado."
Um silêncio se fez na cozinha.
"Sem dizer uma palavra, ele se virou e foi embora."
Minha voz falhou.
"Nunca me esqueci da expressão dos ombros dele. Não estavam caídos. Ele não parecia zangado. Simplesmente pareciam... menores."
Leo olhou fixamente para a mesa.
"O que aconteceu em seguida?"
"Fui procurá-lo na segunda-feira."
"Ele não estava na escola."
"Nem terça-feira."
"Ou quarta-feira."
Desdobrei uma das cartas.
"O diretor nos contou que sua mãe havia aceitado um emprego em outro estado."
"Eles se mudaram durante o fim de semana."
Veja o resto na próxima página.