"Era só uma brincadeira."
Mantive os olhos fixos na estrada.
"Por que fazer tanto alarde?"
Nada ainda.
Ele cruzou os braços.
"Você está agindo como se eu tivesse cometido um crime."
Apertei o volante com mais força.
Quando chegamos à entrada da garagem, ele estendeu a mão em direção à porta.
"Posso ir para o meu quarto agora?"
"Não."
Ele franziu a testa.
"O que?"
"Cozinha."
Ele estava me encarando.
"Para que?"
"Você vai ver."
Dentro de casa, ele jogou os sapatos perto da porta.
"Tenho dever de casa."
"Isso pode esperar."
Ele suspirou ruidosamente, mas me seguiu até a cozinha.
Puxei uma cadeira.
"Sentar."
Ele entrou, visivelmente irritado.
"Isso é ridículo."
Eu não respondi.
Em vez disso, caminhei pelo corredor em direção ao meu quarto.
No fundo do meu armário, atrás de cobertores de inverno e uma mala velha, havia uma caixa de madeira desbotada.
A tampa estava coberta de poeira.
Eu não o tocava há quase vinte anos.
Por um longo tempo, fiquei ali parada, olhando para ele.
Algumas memórias permanecem enterradas porque reabri-las é tão doloroso quanto o dia em que aconteceram.
Meus dedos tremiam quando levantei a caixa.
Quando eu a trouxe de volta para a cozinha e a coloquei sobre a mesa entre nós, o sorriso sarcástico de Leo desapareceu lentamente.
Ele olhou para a madeira desgastada bem de perto, bem na minha frente.
"Mãe..."
Sua voz havia perdido qualquer traço de confiança.
"O que é isso?"
Coloquei a mão na tampa.
"Esse foi o maior erro que já cometi."
Então eu abri a caixa.
Leo olhou para a caixa e depois para mim.
"O maior erro?"
Assenti com a cabeça.
"Aquela que me fez falta durante 20 anos."
Ele se inclinou para a frente.
Dentro havia uma pilha de fotografias antigas, amarradas com uma fita azul desbotada.
Diversas cartas escritas à mão.
Uma pulseira da amizade tecida com fios verdes e brancos.
Um canhoto de ingresso de um jogo de basquete do ensino médio.
E um cartão de aniversário dobrado com as bordas desgastadas.
Leo tirou uma das fotos.
A imagem mostrava uma adolescente ao lado de um menino sorridente.
O menino vestia uma camiseta azul brilhante.
Seu sorriso era de orelha a orelha.
Ele tinha síndrome de Down.
Leo franziu a testa.
"Quem é?"
Engoli em seco.
"Seu nome era Daniel."
Ele olhou para a foto novamente.
"Ele era... da família?"
"Não."
"Meu melhor amigo."
Leo piscou.
"Eu não sabia que você tinha uma melhor amiga antes da tia Rachel."
"Eu não fiz isso."
"Ele chegou antes de todos os outros."
Peguei o cartão de aniversário com cuidado.
Na frente estava escrito: "Para meu amigo favorito".
No interior, escritas em letras grandes e irregulares, havia apenas seis palavras.
"Obrigado por dedicar seu tempo para conversar comigo."
Fechei os olhos.
“Eu tinha 16 anos quando conheci Daniel. Ele havia se transferido para a nossa escola no meio do segundo ano. A maioria dos alunos o evitava. Eles não eram abertamente cruéis. Simplesmente agiam como se ele não existisse.”
Eu sorri tristemente.
“Mas Daniel nunca agiu como se alguém fosse invisível. Ele conversava com todos. Lembrava-se dos aniversários. Perguntava aos professores como tinham sido seus fins de semana.”
"Ele sabia o nome do porteiro."
"Ele até se lembrou dos meus doces favoritos."
Leo escutou sem interromper.
"O mais engraçado? Eu não era legal porque era uma pessoa maravilhosa."
"Sentei-me com ele porque ninguém mais o fez."
"Ele me agradecia todos os dias."
"Como se eu estivesse lhe fazendo um favor."
Eu ri baixinho.
"A verdade é que ele estava me pregando uma peça suja."
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