Minha filha sempre ficava em silêncio quando o padrasto lhe dava banho… até que um dia cheguei em casa mais cedo do que o habitual e vi o que estava diante de mim.

Existem dores que não começam dentro de casa.

Mas se não forem vistos a tempo…

Eles acabam vindo com nossos filhos… todos os dias.

Não consegui dormir naquela noite.

Sentei-me na beira da cama de Sofia, observando-a respirar lentamente, como se nem mesmo dormindo seu corpo conseguisse se soltar. Sua mãozinha ainda segurava o coelhinho de pelúcia, como se fosse a única coisa que a mantivesse ancorada a algo seguro.

As palavras de Alejandro continuavam a ecoar na minha cabeça.

"Está tudo bem... você é forte."

Durante horas, fiquei dividido entre a culpa e o alívio.

Culpa… por ter duvidado.

Alívio… por não ter encontrado algo pior.

Mas, no fundo, ela sabia que nenhuma daquelas emoções era suficiente.

Porque ainda havia algo que não se encaixava.

Por que uma menina de cinco anos, mesmo que estivesse sofrendo bullying na escola, reagiria dessa forma?

Por que um silêncio tão profundo?

Por que permaneceram imóveis, como se qualquer movimento pudesse piorar as coisas?

Na manhã seguinte, decidi não ir trabalhar.

Foi a primeira vez em meses que ele esteve ausente.

Preparei o café da manhã em silêncio enquanto Sofia estava sentada à mesa, mexendo lentamente o leite com a colher.

Alejandro saiu da sala, vestido para o trabalho, com sua habitual calma.

"Não vou à loja hoje", eu disse sem olhar para ele.

Ele assentiu com a cabeça, sem suspeitar de nada.

"Tudo bem. Assim você pode descansar um pouco."
Mas ele não queria descansar.

Eu queria entender isso.

Quando Alejandro saiu de casa, o som da porta fechando foi mais alto que o normal.

Esperei alguns segundos.

Então, abordei Sofia.

“Não vamos à escola hoje”, eu disse com cautela.

Ela ergueu os olhos, surpresa.

"Oh sério?"

Assenti com a cabeça.

“Vamos fazer algo diferente.”

Eu não lhe contei o quê.
Porque nem eu tinha certeza absoluta.

Tudo o que eu sabia era que precisava tirá-la daquele ambiente.

Pedi para ela se trocar e, uma hora depois, estávamos sentadas em um pequeno consultório infantil no centro de Guadalajara.

O nome da psicóloga era Laura.

Ela tinha uma voz calma, um sorriso acolhedor e um jeito de falar que me fazia sentir mais leve.

Sofia não falou a princípio.

Ela ficou sentada ali, abraçada ao seu bichinho de pelúcia, observando tudo com cautela.

Laura não a pressionou.

Ele ofereceu-lhe cores.

Um caderno.

E o tempo.

Após alguns minutos, Sofia começou a desenhar.

Observei em silêncio.

Primeiro ele desenhou uma casa.

Em seguida, uma pequena figura.

Então… outras figuras maiores apareceram.

E então ele desenhou outra coisa.

Um grupo de crianças.

Um deles empurrando a pequena figura.

Mais um rindo.

 

Veja o resto na próxima página.