O cientista do Vaticano examinou o corpo de Carlo e ficou devastado com a verdade.

O Preço da Honestidade.
Voltei e completei o procedimento porque o hábito profissional funciona mesmo quando o mundo está tremendo sob meus pés. Cada medição final confirmou que eu não estava lidando com uma anomalia isolada. Não falei de milagres nem pronunciei a palavra incorruptibilidade perante a comissão. O que eu disse foi muito pior para a minha própria estabilidade:

—Preciso refazer completamente o relatório preliminar, porque o primeiro já não me parece intelectualmente honesto.

Essa frase provocou um silêncio pesado. Não era um triunfo religioso, mas sim um respeito cauteloso por um processo que se tornara enormemente complicado.

Voltei para casa naquela noite e minha esposa, Juliana, percebeu que algo estava errado assim que me viu; eu estava pálido. Nas semanas seguintes, reescrevi o relatório várias vezes. Lutei contra duas tentações opostas: sugerir mais do que podia ser comprovado por pura curiosidade e forçar explicações vagas simplesmente para proteger o modelo mental que me sustentara por toda a vida. No fim, assinei um documento muito mais cauteloso do que os devotos gostariam e muito mais perturbador do que eu mesmo preferiria.
Um Novo Homem Diante do Limite.
O processo foi aberto em Roma com a discrição de sempre, e tentei retomar minha vida civil como se o subsolo de Assis não existisse. Não consegui. Algo havia morrido em mim naquele janeiro: meu antigo conforto, a arrogante convicção de que toda anomalia acabaria por se conformar às minhas categorias científicas favoritas.

Aprendi, através de duras realidades, que a negação precipitada pode ser uma superstição tão tola quanto a crença precipitada, apenas disfarçada com um vocabulário e uma gravata mais refinados. O mais aterrador no caso Carlo Acutis não foi deparar-me com um espetáculo sobrenatural concebido para minar a minha profissão, mas descobrir que a minha própria profissão me conduzia diretamente a uma porta aberta. Uma porta onde os números não desapareciam, mas também não eram suficientes.

Hoje, continuo sendo cientista, continuo fazendo medições e continuo assinando laudos periciais com o mesmo rigor de sempre. Mas faço isso com humildade. Entrei naquele porão como um homem perfeitamente seguro de quem eu era e de como o mundo funcionava. Saí com as mesmas qualificações, a mesma precisão técnica e uma nova ferida que nenhuma fórmula conseguiu curar completamente.

Não fui eu quem destruiu meu relatório; foi a realidade que destruiu o homem que o teria assinado sem hesitar.