Pouco antes de entrar na igreja, meu futuro sogro me entregou um bilhete que dizia: "Diga não, você não sabe o que aconteceu há dez anos."

Miranda franziu os lábios. "Você vai encontrar uma solução, Amelia. Você lida muito bem com o estresse."

Tinha certeza de que era um elogio, mas não gostei.

"Você lida bem com o estresse."

Na semana passada, flagrei Miranda perdendo a paciência. Estávamos na floricultura, Daniel estava no carro, e ela estava escolhendo fitas para os buquês.

Miranda roía as unhas, a voz quase num sussurro. "Você se sentirá menos sozinha depois de se casar."

"Menos sozinha?", perguntei, observando seus dedos se moverem.

Ela hesitou, olhando para mim. "Sim. Sabe... É difícil ser a pessoa de quem todos dependem."

Ele falava de uma forma que me fazia sentir visível e invisível ao mesmo tempo.

O jantar na casa dos pais de Daniel foi diferente naquela noite. Arrumei a mesa, tentando ignorar a atmosfera estranha. Daniel puxou a cadeira para mais perto da mesa e, sem querer, esbarrou no meu pé.

“Você se sentirá menos sozinho depois de se casar.”

"Desculpe", disse ele, olhando para mim. "Um dia longo?"
"Sim", respondi com um sorriso forçado. "Sua mãe fica dando indiretas. Ela vive dizendo que tudo vai mudar depois que nos casarmos, que finalmente vou receber ajuda. E que não posso me livrar da casa da minha avó. Está começando a soar como um aviso."

Daniel cortou o frango em voz baixa. "Ele está preocupado conosco, só isso. Ele tem boas intenções, mesmo que às vezes exagere um pouco."

"Tem certeza?", insisti. "Às vezes sinto que ele está me julgando. Como se eu fosse apenas mais um projeto para gerenciar."

Ele apertou minha mão, seus dedos quentes e fortes. "Você não é um projeto. Não para mim."

Eu queria acreditar, mas as dúvidas persistiam.

“Isto está começando a parecer um aviso.”

Mais tarde, encontrei Richard no corredor. "Richard, você está bem?", perguntei a ele.

Ele deu um pulo, olhou para mim de soslaio e depois desviou o olhar. "Estou apenas cansado, Lia. Tenho muita coisa na cabeça."

***

Na manhã seguinte, saí do café onde costumava ficar. Quase esbarrei em Daniel na calçada.

Ela sorriu para mim, segurando uma sacola de brownies recém-assados. "Eu cheguei primeiro."

Eu ri, sentada ao lado dele enquanto ele passava de bicicleta. "Você sempre sabe onde me encontrar."

Ele deu de ombros, olhando para as mãos no volante. "É uma cidade pequena. E eu conheço seus costumes."

“Richard, você está bem?”

“Você também sabia que eu estaria no parque na quarta-feira”, brinquei. “E em um evento beneficente para um abrigo de animais?”

Eu não postei nada sobre isso. Nem sequer tinha falado com a Tara sobre o assunto, e perceber isso me chocou profundamente.

Seu sorriso desapareceu por um segundo, apenas por um instante. "Acho que estou sendo cautelosa."

***

Dois dias antes do casamento, eu estava arrumando a decoração das mesas quando ouvi Miranda na cozinha. Ela não estava sussurrando.

“Quando a cerimônia terminar, tudo vai mudar”, disse ele. “Ela vai parar de resistir.”

Quebrar.

"Eu sei. Só quero que tudo corra bem."

A palavra "estabilizado" me deu arrepios. Fui até a cozinha.

"Lia! Não te ouvi entrar, querida."

“Acho que estou prestando atenção.”

***

Na manhã do casamento, Miranda estava em todo lugar: alisando meu vestido, arrumando meu cabelo rebelde, sussurrando o quanto estava orgulhosa de Daniel.

Richard não estava em lugar nenhum. A última vez que o vi, ele estava parado perto da porta dos fundos, olhando fixamente para o estacionamento com um cigarro aceso na mão.

Assim que nos posicionamos, Tara apertou minha mão. "Pronta, Lia?"

"Eu penso que sim."

Ela sorriu e sussurrou para mim: "Você parece assustado."

 

 

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