Pouco antes de entrar na igreja, meu futuro sogro me entregou um bilhete que dizia: "Diga não, você não sabe o que aconteceu há dez anos."

Era.

"Você parece apavorado."

A igreja estava lotada. O órgão tocava suavemente, e minha mãe enxugou as lágrimas no primeiro banco.

Richard apareceu no fim do caminho, com os olhos vermelhos e as mãos trêmulas. Parecia um homem que já havia perdido algo antes mesmo da batalha começar.

Abri a boca para dizer algo, mas ele enfiou um bilhete dobrado na minha mão e saiu.

"Diga não. Diga que você não quer se casar com ele. Amelia, você não sabe o que realmente aconteceu há dez anos."

Essas palavras me deixaram sem fôlego.

"O que aconteceu?" perguntou Tara ao ver meu rosto.

"Diga a ela que você não quer se casar com ela."

Entreguei-lhe o bilhete. Os olhos dela se arregalaram.

"Amélia..."

O órgão tocava, as portas estavam prontas para se abrir. Eu podia sair e fazer a minha parte.

Mas passei muitos anos me diminuindo por causa dos outros. Saí da fila, entreguei o buquê para Tara e endireitei os ombros.

"Leia, o que você está fazendo?"

"Preciso de respostas", respondi. "Você poderia me cobrir? Dizer que preciso ir ao banheiro ou algo assim."

Seus olhos se arregalaram.

Tara assentiu com a cabeça em concordância.

Richard ficou parado em frente ao banheiro masculino, encarando os azulejos.

"Você não pode simplesmente me entregar um bilhete assim. Não hoje. Preciso de uma explicação, Richard."

Ela piscou, com a voz embargada. "Eu tentei te dizer, Lia. Já tentei antes."

Apertei o bilhete contra o peito. "Diga-me agora. Sem enigmas. Apenas a verdade, Richard. Você não pode me deixar casar com ela se houver segredos por trás de tudo isso."

Ele olhou nos meus olhos. "Você se lembra de ter conhecido Daniel?"

Preciso de uma explicação, Richard.

“Num café? Claro”, respondi, franzindo a testa.

Richard balançou a cabeça. "Querida, eu estava te esperando." Miranda disse a ele para onde ir, quando ir, o que dizer. Ela... organizou tudo.

Hesitei. "Quer dizer que não foi um acidente?"

" NÃO. "

Ele passou a mão pelos cabelos, envergonhado.

Tudo começou cerca de oito meses depois do falecimento da sua avó. Miranda ouviu seu nome pela primeira vez nesta casa. Em menos de uma semana, ela já falava de você como se você já fizesse parte das nossas vidas.

"Richard, isto é uma loucura."
"Eu estava te esperando."

"Miranda não 'hackeou' nada, se é isso que você quer dizer. Na época, ela trabalhava no departamento de inventários da empresa, registrando novas heranças e inserindo nomes no sistema. Era basicamente trabalho burocrático."

Eu me senti fraco.

"A herança da sua avó chegou, e seu nome constava na escritura, junto com o endereço do imóvel. Foi só isso. Não era o arquivo que ela deveria revisar, mas ela não precisou procurar muito para descobrir que você havia herdado a casa."

"E Daniel simplesmente aceitou a situação?"

"Miranda não 'hackeou' nada."

"Aquele acidente, há dez anos. Aconteceu em outubro do último ano do ensino médio, logo depois que ele completou dezoito anos. Foi o que deixou Daniel em uma cadeira de rodas. Mudou o corpo dele e mudou Miranda. Ela percebeu que podia usar a tragédia como uma tábua de salvação. Daniel estava perdido, e ela era a única voz em quem ele confiava."

Ela já não conseguia falar.

Richard suspirou como se estivesse prendendo a respiração há anos. "Lia... me escuta."

"Você previu isso?", perguntei.

Richard balançou a cabeça. "Não. Não assim."

"Explique-me o que é este café. Explique-me o que é o tempo."

"Ele planejou isso?"

 

 

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