O cheiro deveria ter desaparecido.
Pelo contrário, a situação piorava à noite, como se seus esforços só a irritassem.
A reação de Miguel também mudou.
No início, ele te ignorou. Depois, começou a parecer irritado sempre que você mencionava o assunto. Não confuso. Não preocupado. Irritado. Numa terça-feira, depois do jantar, quando você já tinha tirado os lençóis porque o cheiro tinha impregnado o tecido de novo, ele ficou parado na porta do quarto, com a gravata desfeita e o maxilar cerrado.
"Por que você está fazendo isso agora?"
"Porque o quarto inteiro está com um cheiro ruim."
"É só roupa para lavar. Deixa pra lá."
Você ergueu os olhos do lençol de elástico, surpresa com o tom áspero da voz dele. "Só estou limpando."
Ele se aproximou. "E estou lhe dizendo para parar de fazer tempestade em copo d'água."
Esse deveria ter sido o seu primeiro momento de puro medo.
Não por causa do volume. Miguel não estava gritando. Mas porque era inapropriado. Vocês estavam casados há oito anos. Ele sempre fora do tipo que corrigia os garçons gentilmente, nunca levantava a voz para os caixas e respondia a conflitos com silêncio em vez de agressão. Vê-lo ficar bravo por causa da roupa de cama era como ver um estranho usando o rosto do seu marido ligeiramente distorcido.
Você se desculpou, o que te deixou constrangido depois.
Isso também fazia parte da armadilha. Quando o estranho invade a vida doméstica, não é imediatamente rotulado como estranho. É reduzido a algo administrável: estresse, fadiga, mal-entendidos, pressão no trabalho. Qualquer coisa, menos perigo.
Miguel viajava frequentemente a trabalho, o que, na época, parecia um daqueles pequenos inconvenientes da vida adulta com os quais você aprende a conviver em silêncio. Ele era gerente regional de vendas de uma distribuidora de eletrônicos, sempre viajando entre Los Angeles, Dallas, Chicago, às vezes Denver, às vezes San Diego; o tipo de homem que acumulava milhas aéreas e reservas em hotéis, e histórias sobre bares de aeroporto. No início do casamento, a ausência dele pesava muito. Mais tarde, era o homem que ele era, aquele que sempre voltava, que você sentia falta.
Ao longo do último ano, algo dentro dele ficou tenso.
Ele estava lá, mas ausente, atencioso nos gestos, ausente na energia. Sempre te dava um beijo na testa ao sair. Sempre te mandava mensagem quando o avião pousava. Ainda se lembrava do seu creme de café favorito. Mas ele havia se tornado suspeito, de uma forma irritante e insidiosa. Protetor com a mala. Cauteloso com o celular. Rápido em minimizar as perguntas. Ele havia se tornado um daqueles homens que continuam a desempenhar o papel de marido enquanto se distanciam silenciosamente por dentro.
O cheiro começou a ficar perceptível três meses após o início desse novo distanciamento.
A princípio, você se perguntou se o cheiro vinha da bagagem dela. Depois, dos sapatos. Depois, de alguma coisa no armário. Mas não importava onde você olhasse, o cheiro permanecia concentrado no mesmo lugar: do lado dela da cama. Profundo, baixo, penetrante.
Certa noite, por volta das duas da manhã, você acordou com o coração acelerado.
O quarto estava mergulhado na escuridão, exceto pelo fraco brilho alaranjado do poste de luz que filtrava pelas persianas. Miguel roncava ao seu lado, com um braço cruzado sobre o peito. O cheiro era tão forte que você quase vomitou. Não dramaticamente, não dramaticamente. Apenas um espasmo repentino e involuntário na garganta que a fez chorar.
Você se levantou e ficou lá no escuro, com a mão sobre a boca.
Cheirava a plástico úmido, podre, mofo e algo mais por baixo. Um cheiro metálico e azedo. Algo escondido por tempo demais.
Miguel se mexeu. "O que você está fazendo?"
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