"Não consigo respirar aqui dentro."
Ele se virou para você, o rosto sombrio e indecifrável. "Ana. Volte a dormir."
"Há algo de errado com esta cama."
"Não, não há nenhum."
A certeza em sua voz era mais aterradora do que a negação. Porque não soava como uma suposição. Soava como uma ordem.
Você passou o resto da noite no sofá, com um cobertor enrolado nos ombros, olhando fixamente para o ventilador de teto e tentando não dizer o que estava passando pela sua cabeça.
E se ele souber?
Você se odiava só por ter pensado nisso.
O casamento nos ensina a defender um ao outro contra nossas piores interpretações. Mesmo quando as evidências se acumulam, mesmo quando o instinto começa a soar como um alarme, uma parte de nós ainda busca explicações mais brandas. Estresse. Depressão. Vergonha. Talvez houvesse um problema médico. Talvez ele tivesse derramado algo na cabeceira da cama. Talvez ele tivesse escondido a roupa de ginástica e esquecido. Talvez nossa imaginação, tantas vezes frustrada, estivesse finalmente tentando provar sua existência.
Mas então chegou a noite em que ele gritou.
Você estava trocando os lençóis, dessa vez depois do jantar, e resolveu virar o colchão. Nada de extravagante. Apenas uma pequena tarefa prática, daquelas que casais fazem nos fins de semana e durante a semana, quando a rotina se instala. Você tinha levantado um canto e virado alguns centímetros quando Miguel entrou vindo da garagem.
"Não faça isso."
A palavra ecoou tão alto no quarto que você teria deixado o colchão cair.
Você se virou, com a mão pressionada contra o peito.
"O que?"
Ele estava parado na soleira da porta, com a mochila do laptop ainda pendurada no ombro. Seu rosto empalideceu, não de raiva, mas de medo. Então o medo se dissipou e a raiva tomou conta.
"Eu disse: não toque nisso."
Você estava olhando fixamente para ele.
"É um colchão."
"Eu sei o que é."
"Então por que você está agindo como se eu estivesse roubando um cofre?"
Suas narinas se dilataram. "Porque toda vez que você fica obcecada com a limpeza, a casa inteira vira uma bagunça. Deixe a cama em paz."
Depois disso, um silêncio se instalou na sala, um silêncio que lembrava mais um apagão do que a paz.
Você baixou as mãos lentamente. "Por que você está tão chateado?"
Ele olhou para você por um longo segundo, e algo se obscureceu em seus olhos.
"Estou cansado", disse ele, com naturalidade. "Só isso."
Em seguida, ele tomou um banho, comeu algumas sobras requentadas e passou o resto da noite assistindo à televisão como se nada tivesse acontecido.
Você estava sentada ao lado dele, ouvindo apenas a palavra "não".
Depois disso, o medo deixou de ser abstrato.