Sua maquiagem já havia desaparecido, lavada pelas lágrimas que ela não conseguia mais conter. Cada respiração parecia pesada demais para o seu corpo. Karim encarava o chão calmo e silencioso, como se também carregasse um cansaço invisível. Amina não conseguia conter a raiva. Por que ele estava tão calado? Ele não via a humilhação que vinha sofrendo desde a manhã? Ela disparou palavras contra ele como pedras, e quando ele finalmente falou, sua voz era baixa e firme.
Ele disse que nunca a teria forçado, que sabia como ela se sentia e que nunca a machucaria. A calma dele a perturbou, não sua pobreza, sua compostura que resistia até mesmo aos seus ataques mais cruéis. Ela riu nervosamente, uma risada fria. Ela lhe disse que viver com ele já era um sofrimento, que cada dia ao seu lado seria uma lembrança do seu fracasso, que até os vizinhos cochichavam atrás das portas. Ele não respondeu.
Nem uma palavra, apenas um olhar neutro, quase gentil, que a consumiu mais do que se o tivesse visto se irritar. Então, ela se virou, recusando-se a confrontar aquela estranha tranquilidade. Proibiu-o de tocá-la, de chamá-la de esposa, de acreditar por um segundo sequer naquele casamento.
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Ela disse a ele que, se ele ultrapassasse os limites, preferiria morrer. Ele permaneceu em silêncio, depois pegou um pequeno travesseiro. Deitou-se no chão a uma curta distância, sem uma palavra de repreensão. E logo sua respiração constante preencheu o quarto como se, em meio ao caos, ele finalmente tivesse encontrado um lugar para repousar a alma. Mina. Ela permaneceu acordada, com os olhos perdidos nas sombras do teto, nas teias de aranha e rachaduras que pareciam traçar o contorno de sua própria vida despedaçada.
Ela chorou até o céu começar a clarear. “De manhã, Karim já estava acordado. Eu esquentei um pouco de água”, disse ele simplesmente. “Se você estiver com fome, vou buscar algo.” Amina, irritada, respondeu secamente que podia se virar sozinha. Mas alguns minutos depois, ele voltou com duas marmitas quentes.
Ela recusou na frente dele, depois comeu tudo assim que ele adormeceu. Os dias seguintes se repetiram como um ciclo, sem fome. Karim saía de casa de manhã cedo, voltava tarde da noite, coberto de poeira e suor, e todas as noites deixava uma refeição para ela. "Eu sei que você não comeu."
Ela se recusava a comer na frente dele, depois comia escondida, e uma culpa começou a crescer, tênue, mas muito real. Quanto mais calmo ele se mostrava, mais ela se perdia. Ele nunca gritava: "Não a toque, não se aproveite de nada." Uma noite, ela explodiu. "Por que você não reage? Por que você nem se defende?" Ele a encarou por um longo tempo, depois disse suavemente: "Você não me odeia.
Você odeia o que a vida lhe impôs." Aquela frase a atingiu em cheio. Ele tinha razão. Ela não estava em guerra com ele. Estava em guerra com tudo o mais. No terceiro dia, Amina começou a ter dúvidas. Todas as manhãs, Karim saía com suas roupas velhas, caminhando em direção ao mercado.
Contudo, à noite, ele nunca trazia moedas, nada, mas sempre tinha o suficiente para alimentá-los. De onde vinha tudo aquilo? Não podia ser. Não da calçada, não de uma velha caixa de metal. Naquela noite, ela o confrontou. "De onde você tira tudo isso? Acha que eu não tenho perguntas?" Ele olhou para ela.
Um sorriso quase imperceptível surgiu em seus lábios. "Cuide da sua vida. Não quero que você passe fome." Essa resposta acendeu uma nova tempestade em sua mente. Ele estava escondendo algo, e esse algo estava crescendo cada vez mais entre eles. No quarto dia, Amina o seguiu discretamente. Ele não foi em direção ao mercado.
Ele nem sequer olhou para a calçada onde deveria pedir esmola. Não, ele foi para outro lugar, e ela entendeu que a verdade estava bem diante de seus olhos. Ele desapareceu em uma passagem estreita, engolido por uma curva acentuada. Ela ficou parada ali, sem conseguir se mover. Um medo irracional a paralisou, e pelo resto do dia, sua mente se encheu de um único som:
o som de seus próprios pensamentos girando interminavelmente até sufocá-la. Quem era esse homem a quem ela chamava de marido? Por que cada gesto dele parecia esconder outra verdade, mais profunda, mais sombria? Naquela noite, ela não conseguiu mais ficar em silêncio. “Diga-me quem você realmente é. Não quero mais viver com essa mentira pairando sobre minha cabeça.”
Ele a olhou por um longo tempo, como se procurasse as palavras. Então, sussurrou que o momento chegaria, mas que ainda não era a hora. Sua voz era calma, mas por baixo dela havia uma firmeza que a interrompeu. E então chegou o quinto dia. Aquele que mudaria tudo. Amina ouviu um motor parar em frente à casa, um som estranho àquele lugar.
Seu coração disparou tanto que ela teve que se agarrar ao parapeito da janela. Quando entreabriu a cortina, suas pernas cederam. Karim estava saindo de um carro preto, elegante e luxuoso. O terno dele estava impecável. O rosto limpo, o cabelo penteado com esmero. Nem um traço de poeira, nem um vestígio do cansaço que trazia para casa todas as noites.
Ela levou a mão à boca para abafar um grito. Tremia por inteiro. Não podia ser. Não ele, não o marido. Ele fechou a porta do carro sem pressa e atravessou o pátio como se nada tivesse acontecido, como se aquela transformação fosse apenas um detalhe insignificante. Quando entrou em casa, ela estava parada no meio da sala, sem conseguir respirar direito.
Sua voz saiu entrecortada. "Quem é você, de verdade?" Ele parou. Seu olhar percorreu-a, calmo, com um sorriso quase imperceptível, e ele puxou seus lábios. "Eu ainda sou seu marido." Suas palavras a gelaram. Ela sentiu uma onda de raiva e pânico a invadir. Gritou que aquilo não era uma brincadeira, que havia se casado com um mendigo, não com um homem que dirigia um carro de luxo.
Ele fechou os olhos por um instante, como se estivesse segurando uma ervilha invisível, e respondeu que nunca a havia traído, que a verdade viria, mas ainda não. Ela não suportou. Correu para o quarto e chorou até perder completamente a noção do tempo. Não era mais apenas a dor de um destino imposto. Era uma profunda confusão, quase aterradora, porque uma verdade silenciosa começava a se revelar.
Cinco dias antes, ela pensara que estava se casando com um homem arruinado. Cinco dias depois, aquele mesmo homem apareceu diante dela como alguém completamente diferente. Duas identidades, duas vidas, dois rostos. E a pior sensação de todas era saber que sua mãe talvez soubesse de tudo o tempo todo. As palavras dela, ditas antes do casamento, ecoavam em sua mente.