Ele se casara com ela por causa de uma aposta de cento e oitenta dias... até a noite em que seu coração revelou o segredo deles.

Seus dedos apertaram o pedido de divórcio.

Então ele lentamente o rasgou em dois.

Gabriel caiu na gargalhada, misturada com soluços.

—Isso significa que sim?

— Isso significa que… você terá que perguntar da maneira correta.

Ele apoiou a testa na mão.

— Vou treinar.

Os meses seguintes foram difíceis.

Elise continuava na lista de espera para outro transplante. Alguns dias ela conseguia andar pelo corredor, outros dias não conseguia nem levantar uma xícara.

Gabriel aprendeu a esperar.

Ele aprendeu os nomes das enfermeiras.

Ela aprendeu a adaptar uma cadeira de rodas, a contar comprimidos e a reconhecer o cansaço que Elise ainda tentava esconder.

Ele também aprendeu a andar de metrô.

Na primeira vez, ele pegou o caminho errado e chegou com quarenta e cinco minutos de atraso.

Elise riu tão alto que o alarme do monitor disparou.

"Fico feliz em ver que minha humilhação está melhorando sua saúde", declarou ele.

— Este é provavelmente o tratamento mais eficaz.

Entretanto, a investigação confirmou integralmente o conteúdo da carta.

O pen drive continha os registros das associações fictícias criadas por Armand.

A gravação de Claire capturou sua voz, o que ameaçou silenciá-la.

A testemunha que Charles pagou acabou concordando em falar.

Ele admitiu ter visto o carro de Armand bater no carro de Claire antes de empurrá-la contra a barreira.

Um ano depois daquela noite no hospital, Armand Leduc foi considerado culpado pela morte de Claire, pela tentativa de encobrir os fatos e pelo desvio de vários milhões de euros da fundação.

Charles de Varenne foi condenado por intimidação de testemunhas, destruição de provas e obstrução da justiça.

Gabriel testemunhou contra os dois homens.

Seu pai não olhou para ele nem uma vez durante a leitura do veredicto.

A coleção de vinhos nunca retornou a Gabriel.

Foi apreendido como parte do processo contra Armand.

Gabriel doou pessoalmente quantias equivalentes a duas organizações: a clínica de assistência jurídica onde Elise trabalhava e uma associação de apoio a pacientes transplantados.

Ele se recusou a ter seu nome nas placas dos veículos.

"Você está aprendendo", disse Elise a ele quando descobriu.

- Devagar.

— Muito lentamente.

— Mas eu sou persistente.

Três semanas após o julgamento, o recurso foi apresentado no meio da noite.

Um novo núcleo compatível estava disponível.

Antes de ser levada para a sala de cirurgia, Elise entregou a Gabriel a pequena caixa de metal onde antes escondia seus comprimidos.

Dentro havia uma fotografia de Claire.

— Guarde para mim.

Gabriele tirou a foto.

— Eu te devolvo quando você acordar.

Elise olhou fixamente para ele.

—E se eu não acordar?

Ele balançou a cabeça negativamente.

—Já tivemos essa conversa antes. Não gosto de me repetir.

Ela sorriu.

Então sua expressão ficou séria.

—O coração de Claire me deu doze anos. Me deu meu emprego, minhas lutas... e você.

Gabriele levou a mão ao rosto.

—Então agradeça a ele por mim.

— Eu já fiz.

A operação durou nove horas.

Dessa vez, quando o cirurgião saiu, ela estava sorrindo.

—O novo coração bate perfeitamente.

Gabriel baixou a cabeça.

Ele pensou em Claire.

Àquele coração que viajou por doze anos no peito de um estranho para finalmente trazer a verdade de volta à sua família.

Então ele chorou sem tentar esconder.

Seis meses depois, Elise estava na Ponte Alexandre III, vestida com um simples vestido cor de marfim.

Não havia galeria dourada nem centenas de convidados.

Apenas Madeleine.

Alguns colegas de Saint-Denis.

Os médicos que salvaram Elise.

E uma fotografia de Claire sentada numa cadeira rodeada de flores brancas.

Gabriel estava esperando às margens do Sena.

Ele não havia preparado um contrato.

Ele não havia trazido uma chave antiga consigo.

Quando Elise chegou perto dele, ele segurou as duas mãos dela.

“Elise Moreau”, começou ele, “não prometo a você uma vida sem medo, sem erros, nem sem dias difíceis.”

“Esse não é um começo muito romântico”, murmurou ela.

Os convidados riram.

Gabriele sorriu.

—Eu prometo que farei melhor. Prometo nunca mais desviar o olhar. Nunca mais comprar o seu silêncio. Nunca mais dar a sua presença como garantida.

Sua voz estava trêmula.

—E peço que fiquem não por cento e oitenta dias, mas pelo tempo que desejarem.

Elise levou a mão ao peito.

Um novo coração pulsa sob seus dedos.

Mas a coragem de Claire ainda estava estampada em seu olhar.

"Eu escolho hoje", ela respondeu. "Amanhã você terá que me convencer novamente."

— Negócio fechado.

— Sem contrato.

— Sem contrato.

Eles trocaram alianças em meio a aplausos.

Mais tarde, quando os convidados foram embora, Elise e Gabriel ficaram sozinhos de frente para o Sena.

"Você acha que Claire sabia que terminaria assim?", perguntou ele.

Elise observou as luzes deslizarem sobre a água.

— Não. Eu só acho que ele esperava que você se tornasse o homem que ele via em você.

Gabriel apertou a mão dela.

—E você? O que você vê?

Ela apoiou a cabeça no ombro dele.

— Um homem que ainda às vezes pega o metrô na direção errada.

Ele caiu na gargalhada.

Então partiram juntos novamente, sem motorista, sem aposta e sem data de chegada.

Na primeira vez, Gabriel casou-se com Elise por cento e oitenta dias.

Na segunda vez, eles escolheram amar um ao outro um dia de cada vez.

E nenhum deles jamais perguntou quando o contrato terminaria.