— Gabriel, nosso nome não sobreviverá a isso.
Gabriele retirou a mão delicadamente.
— Claire não sobreviveu ao nosso nome.
A polícia levou Armand embora.
Charles permaneceu imóvel por alguns segundos, como se ainda esperasse que seu filho mudasse de ideia.
"Fiz o que achei necessário", disse ele.
— Não. Você fez a coisa mais simples.
—Você acha que o amor é suficiente para governar um império?
Gabriel olhou para as luzes vermelhas acima da sala de cirurgia.
—Ainda não sei o que é preciso para governar um império. Mas agora sei o que é preciso para perdê-lo.
— Você vai se arrepender.
—Talvez. Mas desta vez, o arrependimento será meu.
Charles partiu sem olhar para trás.
Gabriele ficou sozinha.
As horas que se seguiram foram as mais longas de sua vida.
Às 7h20 o cardiologista retornou.
Sua máscara estava abaixada até o queixo. Seu rosto apresentava sinais de cansaço.
Gabriel se levantou, sem conseguir fazer a pergunta.
"Conseguimos reanimar o coração dela", anunciou ele. "Ela está em suporte de vida e em coma induzido."
Suas pernas quase cederam.
—Ele vai acordar?
— Não posso prometer nada.
—E o coração dele?
—Ele está muito debilitado. Vamos tentar controlar a rejeição, mas provavelmente será necessário outro transplante.
Gabriel olhou para baixo.
O coração de Claire ainda batia.
Fracamente.
Após carregar uma verdade dentro de si por doze anos, ele estava chegando ao fim de sua luta.
— Posso vê-la?
Elise parecia minúscula em meio a todos aqueles aparelhos.
Tubos circundavam seu rosto.
Os monitores transformavam cada batida do coração em uma linha de luz.
Gabriel sentou-se ao lado dela e pegou em sua mão.
“Eu li sua carta”, murmurou ele.
Nenhuma reação.
—Eu sei por que você se casou comigo. Eu sei sobre Claire. Sobre Armand. Sobre meu pai.
Sua voz falhou.
—Você estava certo em não confiar em mim. Durante trinta e seis anos, nunca olhei para o que estava escondido no meu dinheiro. Pensei que pagar resolveria tudo.
Ele levou a mão de Elise aos lábios.
—Mas você estava errado em uma coisa. Se você morrer, eu não transformarei sua morte em uma dívida.
Uma lágrima rolou por sua bochecha.
—Eu simplesmente não vou deixar você morrer.
Durante seis dias, Gabriel praticamente não saiu do hospital.
Ele respondeu às perguntas dos investigadores.
Ele entregou a carta.
Ele autorizou a polícia a revistar os escritórios do grupo Varenne.
Ele convocou o conselho de administração e suspendeu seu pai de todas as suas funções.
Os jornais revelaram desfalques na fundação, falsificação de contratos e a reabertura da investigação sobre a morte de Claire.
O valor das ações do grupo despencou.
Vários administradores renunciaram.
Os hóspedes que haviam rido de Elise no Hotel Beaumont de repente pararam de atender o telefone.
Béatrice de Saint-Clair publicou uma mensagem dizendo que sempre admirou a coragem de Elise.
Gabriel nem se deu ao trabalho de ler até o fim.
Na manhã do sétimo dia, enquanto estava sentado ao lado da cama de sua esposa, ele sentiu os dedos dela se moverem.
A princípio, ele pensou que tinha imaginado tudo.
Então as pálpebras de Elise tremeram.
— Elise?
Ele abriu os olhos.
Seu olhar permaneceu vago por alguns segundos antes de se fixar nele.
Gabriel inclinou-se para a frente.
—Você está no hospital. A operação foi um sucesso. Você está seguro.
Ele tentou falar.
Nenhum som foi ouvido.
Ele chamou a enfermeira, mas os dedos de Elise apertaram-lhe fracamente.
"Não se preocupe", murmurou ele. "Armand foi preso. A polícia tem as provas. Madeleine está bem."
Uma lágrima escorreu pela têmpora de Elise.
Seus lábios mal conseguiam formar duas palavras:
—Que dia?
Gabriel olhou para a tela do seu celular.
Então ele entendeu.
— O centésimo octogésimo.
Elise fechou os olhos.
—A aposta…
- Acabou.
Ela retirou lentamente a mão da dele.
Apesar de sua fraqueza, Gabriel viu a dor aparecer em seu rosto.
Ela pensou que ele tivesse vindo anunciar o fim do casamento deles.
Então ele tirou um pequeno envelope do bolso do paletó.
"Estes são os documentos do nosso acordo", explicou ele. "Eu os anulei."
Elise olhou para ele sem entender nada.
—Não vou reivindicar a coleção de Armand. Não quero receber nada só porque você ficou cento e oitenta dias.
Ele colocou um segundo envelope ao lado do primeiro.
—E aqui está um pedido de divórcio assinado por mim.
Elise desviou o olhar.
—Você quer… ir embora?
- NÃO.
Gabriel respirou fundo.
Nunca antes uma negociação envolvendo várias centenas de milhões de euros havia exigido tanta coragem da parte dele.
— Quero que você seja livre.
Ela virou a cabeça novamente em direção a ele.
Não vou pedir que você fique porque está doente, porque carrega o coração da Claire ou porque me sinto culpado. Você decidirá quando estiver forte o suficiente.
Ela entregou-lhe o pedido de divórcio.
—Você pode enviar a qualquer momento. Não vou questionar.
Elise examinou o documento.
—E se eu não transmitir isso?
—Então, quando você sair daqui, eu vou te pedir em casamento.
Um leve sorriso surgiu em seus lábios pálidos.
— Já somos casados.
— Não. A primeira vez que me casei com um desconhecido foi para conseguir uma adega.
Ele se inclinou em direção a ela.
—Da próxima vez, quero me casar com a mulher que me ensinou que um coração pode dizer a verdade muito tempo depois de alguém ter tentado silenciá-lo.
Elise fechou os olhos.
Dessa vez não se tratava de fugir.
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