Ele se casara com ela por causa de uma aposta de cento e oitenta dias... até a noite em que seu coração revelou o segredo deles.

Seu olhar se voltou para a carta amassada que Gabriel ainda segurava na mão.
- O que é isso?

—As saudações que Elise havia escrito para o fim da aposta.

Armand olhou fixamente para ele.

—Ele sabia sobre Claire?

Gabriel parou de se mexer.

Armand percebeu seu erro.

Ele desviou o olhar imediatamente.

— Quer dizer… você sabia que a Claire era a doadora?

— Eu nunca te disse que Claire lhe deu o coração dela.

A máscara de Armand rachou.

Só um segundo.

Mas Gabriel reconheceu, por trás daquele rosto familiar, o homem que sua irmã vira no retrovisor doze anos antes.

— Gabriele, escuta…

— Você a matou?

— Não foi intencional.

A resposta veio rápido demais.

Armand empalideceu.

Gabriele sentiu a raiva subir pelos braços, pelo peito, até o queixo.

Ele poderia tê-lo atingido.

Ele poderia tê-lo esmagado contra a parede.

Mas a última frase de Elise ressoou nele.

Não transforme minha morte em mais uma dívida.

Então Gabriel discretamente tirou o celular do bolso e começou a gravar.

- Diga-me.

Armand olhou em volta.

— Não aqui.

—Você queria saber o que Elise deixou para trás. Mas primeiro, você vai me dizer o que fez com Claire.

—Ela havia se tornado incontrolável. Ela havia roubado documentos confidenciais.

— Evidências do seu desfalque.

"Eu só queria falar com ela! Ela se recusou a parar. Acelerei para ultrapassá-la e o carro dela bateu na barreira."

—Você bateu no carro dele?

— Eu acabei de tocar nele.

A voz de Armand falhou.

—Estava chovendo. Ele dirigia muito rápido. Tudo aconteceu muito depressa.

—E você a deixou morrer.

— Liguei para o seu pai.

Gabriele sentiu o sangue gelar em suas veias.

— Meu pai estava presente no local?

Ele chegou antes da polícia. Percebeu que, se Claire já tivesse entregado as contas, estávamos todos perdidos. O grupo Varenne estava praticamente insolvente na época. O banco do meu pai era quem mantinha seus hotéis funcionando.

— Então ele comprou a testemunha.

— Isso protegeu milhares de empregos.

— Ele se protegeu.

Uma voz soou atrás deles.

—Já chega, Armand.

Charles de Varenne estava parado na entrada do corredor.

Apesar de ter sessenta e oito anos, ele ainda mantinha a postura ereta e o olhar imperioso que faziam tremer salas de reuniões inteiras.

Ele se aproximou do filho.

— Desligue esse telefone, Gabriel.

Gabriele não se mexeu.

—Você sabia que Armand matou Claire.

— Foi um acidente.

— Você pagou uma testemunha.

—Impedi que uma tragédia destruísse outras dez mil.

— Claire era sua filha.

Pela primeira vez, Charles desviou o olhar.

—Você não sabia da situação do grupo. Os hotéis estavam hipotecados. Nossos funcionários perderiam tudo. Sua mãe estava doente. Você ainda era estudante.

—E Claire?

— Ela já havia sido sentenciada quando eu cheguei.

—Então você decidiu que a verdade dela tinha que morrer com ela.

Charles ergueu o queixo.

— Me dê a carta.

— Para isso?

—Porque essa mulher vem te manipulando desde o início. Ela se infiltrou na nossa família para nos destruir.

Gabriel olhou para as portas da sala de cirurgia.

—Essa mulher guardou o coração da sua filha por doze anos.

Carlo enrijeceu.

- O que ?

— Elise é a destinatária.

O rosto de seu pai perdeu toda a cor.

Armand deu um passo para trás.

— É impossível.

Gabriel se virou para ele.

—Foi por isso que você propôs essa aposta, certo?

— Eu não sabia quem você escolheria.

—Mas quando você viu Elise na prefeitura, você a reconheceu.

Armand não respondeu.

Gabriele lembrou-se subitamente de sua estranha insistência no dia do casamento.

Pela forma como Armand perguntou a Elise se ela já havia conhecido algum membro da família Varenne.

Pelo sorriso dela quando respondeu não.

Ele achou que era uma brincadeira.

Era um cheque.

"Você passou seis meses observando-a", percebeu Gabriel. "A aposta não era para provar que eu podia ser amado. Você queria saber o que ela estava procurando."

—Ele nunca deveria ter aceitado.

—Mas ela fez. E você ficou com medo.

Armand cerrou os punhos.

— Onde estão os documentos?

- Seguro.

— Você está mentindo.

- Talvez.

Armand deu um passo em sua direção, mas dois homens à paisana apareceram no final do corredor.

Atrás deles caminhava um policial uniformizado.

Charles reconheceu imediatamente os policiais.

"Gabriel", ela sussurrou. "Pense no que você está fazendo."

— É exatamente isso que eu nunca fiz até agora.

O policial se aproximou.

— Sr. Leduc, precisamos interrogá-lo sobre novos fatos relacionados à morte de Claire de Varenne, bem como sobre algumas transações financeiras da fundação.

Armand se virou para Gabriel.

— Você não tem provas.

O telefone de Gabriel tocou.

Ele era o policial enviado à casa de Elise.

—Sr. de Varenne, encontramos a Sra. Madeleine Laurent. Ela está abalada, mas ilesa. O indivíduo que entrou no apartamento foi preso.

Gabriel olhou para Armand.

—E a pasta azul?

—Está em nossa posse. Contém extratos bancários, cópias de contratos, um pen drive e a gravação de uma chamada telefônica da noite do acidente.

Armand fechou os olhos.

Toda a sua arrogância pareceu desmoronar subitamente.

Charles colocou a mão no ombro do filho.

 

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