Ele pagou à única testemunha que depôs que Claire havia perdido o controle do carro devido à chuva. Ele queria proteger o grupo Varenne de um escândalo financeiro e impedir que o Banco Leduc retirasse seus investimentos.
Durante doze anos, eles viveram como se Claire tivesse morrido em um acidente.
Pessoalmente, vivi de acordo com o coração e a verdade dele.
Quando você compareceu perante o tribunal de Bobigny com seu contrato absurdo, eu o reconheci imediatamente.
Aceitei porque queria fazer parte desta família e encontrar as provas que Claire disse ter escondido.
Mas essa não é toda a verdade.
Eu também aceitei porque Claire sempre falava de você como alguém que ainda podia ser salvo.
Durante cento e oitenta dias quis descobrir se ele estava certo.
Acho que ele tinha isso.
Eu não planejava me apaixonar por você.
Me perdoe por ter mentido para você.
As provas foram encontradas na casa de Madeleine.
Não deixe que Armand ou seu pai os destruam.
E, acima de tudo, não transforme minha morte em uma nova dívida que você tentará pagar.
Ame-me apenas se eu acordar.
Elise.
Gabriel ficou parado no meio do corredor, com a carta tremendo em seus dedos.
Pela primeira vez na vida, ela já não sabia onde começava sua raiva nem onde terminava sua dor.
Uma porta se abriu de repente.
O cardiologista apareceu, seguido por duas enfermeiras que correram em direção à sala de cirurgia.
"O que está acontecendo?", perguntou Gabriel.
O médico não demonstra sinais de que irá diminuir o ritmo.
—Seu coração parou.
A folha de papel escorregou das mãos de Gabriele.
- NÃO.
Ele agarrou o braço do cardiologista.
— Você tem que salvá-la.
— Estamos fazendo tudo o que podemos.
—Faça mais!
Finalmente, ela se virou para ele novamente.
—Sr. de Varenne, sua esposa está sofrendo uma grave rejeição cardíaca. Precisamos colocá-la imediatamente em suporte circulatório. O procedimento é extremamente arriscado.
— Então faça isso.
— Ele pode não sobreviver à operação.
Gabriel olhou fixamente para as portas atrás das quais Elise acabara de desaparecer.
Apenas algumas horas antes, ele ainda acreditava que a maior ameaça era sua partida do apartamento no 180º dia.
Ora, ele teria dado seus hotéis, seu nome e até a última garrafa restante naquela adega maldita, só para ouvi-la tirar os sapatos na entrada mais uma vez.
"Ele lutou durante doze anos para salvar o coração da minha irmã", murmurou ela. "Ele não vai morrer por causa do silêncio da minha família."
Ele assinou as autorizações.
Então ele pegou a carta.
Naquele exato momento, o telefone dele vibrou.
Armand Leduc.
Gabriele observou o nome aparecer na tela.
Ele atendeu o telefone.
"Ouvi falar da Elise", disse Armand com uma voz fingidamente preocupada. "Vou para o hospital."
—Quem te contou isso?
Silêncio.
Muito curto.
Mas isso já basta.
"Seu pai", respondeu Armand.
— Meu pai ainda não sabia que ela estava aqui.
O silêncio tornou-se mais pesado.
Gabriel sentiu algo congelar dentro de si.
—Como você sabe o que aconteceu com ele, Armand?
— Gabriel, você está chateado. Conversaremos sobre isso quando eu chegar aí.
— Não. Conversaremos agora.
—Ele deixou alguma coisa para você, não deixou?
Gabriel fechou os olhos.
Armand não perguntou se Elise havia falado.
Ele perguntou o que ela havia deixado para trás.
“Uma fotografia”, mentiu Gabriel. “Nada mais.”
Armand exalou seu último suspiro lentamente.
- Cheguei.
A conexão foi interrompida.
Gabriel então compreendeu que Elise nunca estivera segura em seu apartamento.
Seus comprimidos.
A bolsa dela.
A carta lacrada.
Alguém sabia que ele estava procurando por evidências.
Ele ligou imediatamente para a polícia e pediu para ser transferido para a unidade de crimes financeiros. Forneceu o nome de Armand, o nome do pai dele e resumiu o conteúdo da carta.
O policial manteve-se cauteloso.
— Uma carta não será suficiente para prosseguir com a prisão.
— As provas existem.
- Ou?
Gabriel devolveu a fotografia de Claire.
Num canto, quase invisível, havia um número escrito a lápis.
Ele se lembrou da velha senhora que Elise visitava todos os domingos.
Madalena.
Ele discou o número.
Após quatro toques, uma voz idosa atendeu.
— Elise?
Gabriel teve que tentar duas vezes antes de conseguir falar.
— Não. Sou Gabriel de Varenne.
A mulher parou de respirar.
—Ele finalmente te contou a verdade?
—Ele está na sala de cirurgia. O coração dele parou.
Madeleine não respondeu.
Gabriele ouviu apenas um soluço abafado.
— Senhora — continuou ele — Elise escreveu que possui provas da morte de Claire.
— Não estou ao telefone.
—Armand sabe que Elise está aqui. Ela está a caminho do hospital.
A voz de Madeleine mudou instantaneamente.
—Então não fique sozinha. E, acima de tudo, não mostre a carta para ele.
- Onde você está ?
— No apartamento de Elise, em Saint-Denis.
— Para isso?
—Porque ela me pediu para pegar a pasta azul caso algo lhe acontecesse. Mas alguém já chegou.
Gabriel sentou-se.
- O que você quer dizer?
Um som abafado veio da outra extremidade da linha telefônica.
Então Madeleine sussurrou:
—A porta acaba de se abrir.
A conexão foi interrompida.
Gabriel ligou para a polícia uma segunda vez e forneceu o endereço.
Ele queria sair do hospital, mas as portas do corredor se abriram simultaneamente.
Armand caminhava em sua direção.
Terno escuro.
Casaco com caimento perfeito.
Uma expressão de preocupação, na medida certa.
Como sempre.
— Meu Deus, Gabriel…
Ele abriu os braços.
Gabriele deu um passo para trás.
Armand parou.
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