Era o ano de 1847, e o calor úmido do Delta do Mississippi pairava sobre Blackwood Plaza como um manto de areia molhada. Era um império de algodão, ambição e expansão, forjado na terra pelo Cabo Silas Blackwood.
Para o mundo exterior, Silas era um colosso da indústria, um homem de vontade de ferro e bolsos repletos de dinheiro. Mas dentro das paredes de sua grande mansão de colunas brancas, ele era um tirano cujo coração havia se endurecido há muito tempo.
Silas tinha dois filhos, mas, se tomasse algumas xícaras de bourbo, só tinha um.
Havia Julia, seu filho e herdeiro, um homem de vinte e cinco anos, um pavão, que passava mais tempo jogando em Nova Orleans do que aprendendo sobre a terra. E depois havia Charlotte.
Charlotte tinha vinte e três anos, cabelos loiros como seda e olhos que refletiam a tristeza de mil dias chuvosos. Aos doze anos, uma semente silvestre a derrubou durante uma tempestade.
A queda fraturou sua coluna, privando-a do uso das pernas e, aos olhos de seu pai, de sua coragem.
Por mais de uma década, ela ficou confinada a uma pesada cadeira de rodas de madeira, movendo-se pelos andares superiores da mansão como um fantasma.
“Um novelo quebrado vale o grão que come”, queixou-se Silas aos seus convidados, com a voz ecoando pelo chão até onde Charlotte lia à luz de velas.
“Ela não pode se casar, nem cuidar de uma casa, e muito menos me dar netos. Ela é um fardo para mim.”
Os funcionários do Blackwood Plaza sabiam que não deviam contradizer o Cabo, mas ficaram devastados com a Srta. Charlotte. Ela era gentil, apesar de seu isolamento.
Ela ensinou as criadas a ler o segredo e consertava discretamente suas viseiras quando o capataz não estava olhando. Mas sua gentileza não foi apreciada por Silas Blackwood.
Sua única verdadeira companheira era Mamie, uma pessoa que cuidava de Charlotte desde o seu nascimento. Mamie era a ponte entre Charlotte e o mundo, trazendo-lhe bandejas de comida e notícias do exterior.
“Não dê atenção a ele, querida”, sussurrou Mamie, penteando os cabelos de Charlotte. “O Senhor não está errado. Você tem um propósito. Ele simplesmente se revelou a você.”
Mas a revelação veio mais cedo do que o esperado e na forma de absoluta crueldade.
Era uma terça-feira no final de julho, quando o calor se aproximava dos quarenta graus. Silas havia perdido uma quantia considerável de dinheiro em uma corrida de cavalos na noite anterior e estava de muito mau humor.
Ele estava de pé na grande varanda, observando os trabalhadores que retornavam dos campos. Seu olhar recaiu sobre Isaac.
Isaac era um homem de proporções míticas. Com 1,93 metros de altura e ombros que pareciam esculpidos em grafite, ele era o homem mais forte da física.
Ele a comprara cinco anos atrás em Charleston. Era conhecido por duas coisas: sua capacidade de levantar uma roda de carroça sozinho e seu silêncio.
Durante cinco anos, ninguém em Blackwood jamais ouvira Isaac pronunciar uma única sílaba. Chamavam-no de “O Mudo”.
Silas observou Isaac levantar sem esforço dois sacos pesados de torta, com o rosto impassível. Uma ideia sombria e maliciosa formou-se na mente do Coroel.
Ele estava farto das contas médicas. Estava farto da rampa que teve de construir para a varanda. Estava farto de olhar para Charlotte e ver o seu próprio azar refletido na cadeira de rodas dela.
“Tragam todos para o pátio!” gritou Silas para seu capataz. “E tragam minha filha aqui! Agora mesmo!”
A ordem provocou uma onda de medo na casa. Mamie ajudou Charlotte a se sentar, com as mãos tremendo. “Fique quieta, querida. Fique quieta”, orou Mamie.
Quando Charlotte foi levada para o pátio empoeirado, o sol batia forte em sua pele pálida. Ela fechou os olhos e olhou para o pai, que estava de pé nos degraus como um juiz diante de um criminoso.
As pessoas, os rapazes dos estábulos e os empregados domésticos estavam reunidos em semicírculo, com a cabeça baixa.
Silas apontou o dedo para Isaac, que estava perto do bebedouro, enxugando o suor da testa.
“Você! Isaac!” gritou Silas.
O homem gigantesco virou-se lentamente, sua expressão ilegível.
“Você é a mula mais forte que eu tenho”, zombou Silas. “E eu tenho uma carga pesada que estou cansado de carregar.”
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