O quarto do homem rico cheirava a podre enquanto a criança agonizava. Ninguém acreditou na humilde faxineira quando ela implorou.

—Minha querida, seu pai já faleceu. Não se prenda à dor.

Mas Lupita não estava se detendo na dor. Ela estava seguindo uma pista.

Os jornais repetiam a mesma coisa: baixos níveis de oxigênio sem causa aparente, pele cianótica, tosse intensa, sensação de corpo estranho na garganta, progressão inexplicável. As palavras eram difíceis, mas as coincidências não.

Às 2h17 da manhã, o Dr. Julián Rivas deixou a unidade de terapia intensiva com o rosto pálido. Ele não parecia mais o homem confiante que liderava a todos. Parecia alguém que estava perdendo uma guerra.

Lupita parou em frente a ele.

—Doutor, por favor. Meu pai disse que tinha algo vivo na garganta. Eu vi algo sair da boca dele quando ele morreu. Ninguém acreditou em mim.

O médico estava prestes a afastá-la, mas parou ao ver a pasta.

Ele pegou os papéis. Deu uma olhada rápida neles. Depois, mais devagar.

—O que seu pai fazia da vida?

—Em construção. Antes de adoecer, ele havia retornado de um projeto em Veracruz, onde estavam descarregando caixas de plantas raras para um laboratório.

O médico olhou para cima.

—Qual laboratório?

Lupita não teve chance de responder.

Um alarme disparou novamente na UTI. Uma enfermeira gritou que Mateo estava perdendo oxigênio. O médico correu até lá, mas a pasta permaneceu em suas mãos.

Pela primeira vez, alguém a tinha escutado.

Minutos depois, Lupita viu um homem de jaleco branco sair do quarto de Mateo. Ele não era nenhum dos médicos que ela conhecia. Caminhava calmamente, com o crachá virado para o lado oposto e uma pasta preta pressionada contra o peito. Antes de virar a esquina, olhou para trás.

E ela sorriu.

Lupita sentiu frio.

Ela esperou até que todos estivessem distraídos com a emergência. Então, tremendo, entrou no quarto de Mateo. O menino estava inconsciente. Sua boca estava ligeiramente aberta. O cheiro estava mais forte.

Havia algumas tenazes compridas na bandeja de metal.

Lupita colocou luvas, tal como vira as enfermeiras fazerem. Aproximou-se lentamente, abriu ligeiramente a boca do rapaz e olhou para o fundo da sua garganta.

Então ele viu.

Algo escuro, fino, vivo, contorcendo-se onde ninguém havia procurado.

E assim que o alicate a tocou, a porta se abriu de repente…
PARTE 3

"Soltem-no!" gritou uma enfermeira.

Mas Lupita não conseguia mais se separar dele.

Suas mãos tremiam, seus olhos se enchiam de lágrimas, e ela segurava a pinça com toda a força que uma menina de 8 anos conseguia reunir. Dentro da garganta de Mateo, aquela coisa se contorcia como se lutasse para sobreviver.

A enfermeira correu em sua direção, mas o Dr. Julián Rivas entrou logo atrás e paralisou.

"Não a toque", ordenou ele.

Ninguém entendia porquê.

Lupita puxou devagar. Um centímetro. Depois outro. Mateo soltou um som rouco, como se pela primeira vez o ar estivesse tentando forçar sua passagem. A menina cerrou os dentes, a lembrança do pai queimando em sua mente.

"Ele se sente vivo aqui."

Eu não ia deixar mais ninguém morrer por não me ouvir.

De repente, a criatura surgiu.

Ele caiu sobre o longo lençol branco e escuro, como uma centopeia magra com pernas finas que se debatiam desesperadamente. Uma enfermeira gritou. Outra recuou até encostar na parede. Os monitores mudaram de ritmo.

Mateo inspirou.

 

 

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