Uma menina recém-nascida, arrancada dos braços da mãe antes mesmo de seu cordão umbilical ser cortado. Séverine gritou incessantemente por três dias. Depois, silenciou. Simplesmente parou de falar, comer e reagir. Seis semanas depois, morreu. Oficialmente, sua morte foi atribuída ao tifo. Na realidade, foi um coração partido. Aurore deu à luz um filho em maio.
Ela conseguiu segurá-lo nos braços por algumas horas antes que ele viesse atrás dela. Eu estava com ela quando aconteceu. Vi seu rosto se despedaçar, desfigurado para sempre. Em junho, dei à luz outro menino. Cabelo escuro, olhos fechados, mãozinhas que se agarravam às minhas com uma força inexplicável. Senti amor e ódio ao mesmo tempo.
Eu o amava porque ele era meu filho, eu o odiava porque ele era filho dele. No dia seguinte, o ódio me consumiu. Para Maissteiner, a guerra havia terminado; ele desapareceu antes da chegada dos Aliados. Alguns dizem que ele fugiu para a América do Sul, outros que foi morto por seus próprios homens quando perceberam que a derrota era iminente. Nunca saberemos. Voltei para Saint-Rémi-sur-Loire.
Minha mãe morreu de tristeza. Meu pai não me reconheceu quando bati à porta. Fiquei paralisada, encarando o velho relojoeiro que me observava como se eu fosse um fantasma. Talvez eu fosse. Vivi sessenta e cinco anos depois do fim da guerra. Vivi sozinha. Trabalhei como costureira. Nunca me casei.
Não tive filhos. Durante décadas. Nunca falei sobre o que aconteceu naquele campo. Não porque quisesse esquecer, mas porque ninguém queria ouvir. Até 2010, aos 86 anos, quando concordei em ser entrevistada para um projeto em memória das mulheres esquecidas da Segunda Guerra Mundial.
Essa foi a primeira e única vez que contei minha história completa. O que revelei naquela entrevista vai muito além de tudo que compartilhei antes. Porque o que aconteceu com minhas irmãs e nossos filhos não terminou em 1945. Pelo contrário, aquilo foi apenas o começo. Nos próximos episódios desta série documental, revelarei segredos que permaneceram ocultos por quase 70 anos.
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