-Vir.
—Não sou criança para ser arrastada pelos corredores.
Uma espécie de arrependimento cruzou seu olhar.
-Por favor.
Essas palavras, proferidas por Ethan Graves, tiveram mais efeito do que qualquer ordem.
Eu o segui até seu escritório. Assim que ele fechou a porta, atirei nele a pasta que carregava. Os papéis se espalharam por todo o tapete.
—Eu te disse que não queria que Noah se envolvesse nisso tudo!
—Não fui eu quem vazou a foto.
—Mas você é quem vive rodeado de pessoas capazes de fazer isso.
Ethan tirou o casaco e o deixou no encosto de uma cadeira.
—Esse era meu tio.
-Que?
— Marcus Graves. Ele está de olho no meu emprego há anos. Se ele conseguir retratar Noah como fruto de um escândalo e a mim como alguém incapaz de controlar a própria vida privada, ele tentará convencer o conselho a me demitir.
Levei a mão à testa.
—Não se trata de mim.
"Sim, é por sua causa", disse ele, aproximando-se. "Porque eles te atacaram para me atacar. Porque minha família te usou de novo. E porque desta vez, eu não vou permitir."
Queria guardar minha raiva para mim, mas a voz dela era tão firme que me desarmou.
—E o que você vai fazer?
—Para dizer a verdade.
Eu ri.
—A verdade? Toda a verdade?
-Todos.
—Isso também vai me destruir.
—Não se você disser primeiro.
Eu apenas fiquei olhando para ele.
Você está louco?
-Provavelmente.
Ethan abriu uma gaveta e tirou uma pasta. Ele a colocou na minha frente.
—O acordo inicial. Os pagamentos. Os e-mails da minha mãe para o advogado. Os documentos que negam o seu acesso ao bebê. Absolutamente tudo.
Minhas mãos tremeram quando toquei nas folhas.
Esta é a minha assinatura.
A jovem que eu era aos vinte e dois anos parecia estar me escrevendo de outro mundo. Uma jovem assustada e exausta, pronta para vender tudo o que possuía para salvar sua mãe.
—Por que você está me dando isso?
—Porque durante cinco anos, a história esteve nas mãos de outros. Isso não acontece mais.
Eu não chorei.
Então não.
Mas naquela noite, quando cheguei em casa e Noah me ligou por vídeo para mostrar que tinha perdido um dente, tive que fingir que a conexão estava ruim para não cair no choro na frente dele.
No dia seguinte, Ethan convocou uma reunião interna com o conselho de administração e os principais executivos. Minha presença não era obrigatória, mas eu compareci.
Marcus Graves era um homem de sorriso elegante e olhar cruel. Quando me viu entrar, ergueu uma sobrancelha.
—Que coragem!
Sentei-me em frente a ele.
—Não. Estou apenas cansado.
Ethan falou primeiro. Ele não poupou palavras. Contou como, cinco anos atrás, estivera gravemente doente. Como sua mãe, desesperada para garantir um herdeiro, fizera um acordo abusivo com uma jovem vulnerável. Que essa jovem era eu. Que Noah era filho dela. Que qualquer tentativa de usar esse fato para me humilhar seria punida judicialmente.
Um silêncio profundo se instalou na sala.
Marcus aplaudiu lentamente.
—Isso é muito comovente. Mas a reputação desta empresa…
"A reputação desta empresa não depende de punir uma mulher por decisões tomadas por uma família poderosa", interrompi.
Todos os olhares se voltaram para mim.
Minha voz estava trêmula, mas continuei.
“Aceitei esse dinheiro porque minha mãe estava morrendo. Não me orgulho de tudo, mas não me envergonho de ter tentado salvá-la. Dei à luz uma criança, e ela me foi tirada antes mesmo que eu pudesse segurá-la. Se alguém acha que isso me torna uma ameaça para esta empresa, então talvez o problema não seja comigo.”
Ninguém falou.
Ethan acrescentou então:
Laura manterá o emprego. Se ela decidir sair, será por vontade própria e com justa indenização. E se alguém a difamar novamente, terá que se ver comigo.
Marcus sorriu.
—Você fala como se ela fosse sua esposa.
O silêncio que se seguiu foi insuportável.
Ethan não desviou o olhar.
—Não. Estou falando como pai da criança.
Essa frase mudou alguma coisa.
Não porque fosse romântico. Não porque resolvesse o passado. Mas porque, pela primeira vez, Ethan me colocou publicamente onde eu sempre deveria ter estado: não como fonte de constrangimento, não como um segredo, não como uma transação.
Assim como a mãe de Noé.
O vazamento cessou em poucos dias. Marcus foi investigado por manipulação interna e uso indevido de informações confidenciais. Meu gerente ofereceu um pedido de desculpas desajeitado. Minhas colegas pararam de cochichar quando eu passava, embora algumas continuassem a me olhar com uma mistura de curiosidade e culpa.
Continuei trabalhando.
Não por orgulho.
Mas porque eu precisava provar a mim mesmo que minha vida não seria mais decidida pelos Graves.
Com Noah, tudo era mais lento e mais bonito.
No primeiro dia em que ele me chamou de "Mãe", não houve nenhum acontecimento dramático. Não havia música, nem chuva, nem cena idílica.
Estávamos num supermercado. O Ethan tinha ido comprar cereais e o Noah vinha caminhando ao meu lado, empurrando um carrinho pequeno. De repente, ele viu uns biscoitos e perguntou:
—Mãe, podemos ficar com isso?
Permaneci imóvel.
Ele também.
Ela percebeu o que tinha dito. Suas orelhas ficaram vermelhas.
—Posso dizer Laura, se você quiser.
Eu me agachei no meio do corredor.
"Não", murmurei. "Eu gosto."
Noah sorriu timidamente.
Ethan chegou com uma caixa de cereal e nos encontrou reunidos perto dos biscoitos. Ele não pediu nada. Simplesmente colocou três pacotes no carrinho.
"Papai", disse Noah, "mamãe disse que sim."
Ethan olhou para mim.
Havia um calor em seus olhos que não existia antes.
—Então compramos quatro deles.
Com o tempo, Ethan começou a vir menos por obrigação e mais por hábito. Ele era um cozinheiro péssimo, mas persistia. Noah disse que as panquecas dele pareciam mapas de países imaginários. Eu ri. Ethan fingiu estar ofendido.
Certa noite, depois de colocar Noah na cama no meu quarto, encontrei-o lavando a louça na cozinha.
A cena era absurda.
Ethan Graves, o CEO inacessível, com as mangas arregaçadas, lutava com uma frigideira queimada.
"Você não precisa fazer isso", eu disse.
-Eu sei.
—Então, por que você está fazendo isso?
—Porque durante muito tempo, eu não fiz o que deveria ter feito.
A água continuou a fluir.
Eu me inclinei sobre a mesa.
—Não dá para lavar a louça suja dos últimos cinco anos.
—Não estou tentando consertá-los dessa forma.
-ENTÃO?
Ele fechou a torneira. Secou as mãos lentamente antes de olhar para mim.
—Procuro manter-me afastado sem me impor.
Meu coração estava sofrendo de uma maneira nova.
—Ethan…
Não vou pedir que me perdoe depressa. Nem que me esqueça. Nem que forme uma família só porque o Noah quer. Só quero que saiba que, se algum dia eu tiver um lugar na sua vida, vou conquistá-lo.
Eu não sabia o que responder.
Então, fiz a única coisa honesta que podia fazer.
—Ainda dói.
Ele assentiu com a cabeça.
-Eu sei.
—Às vezes, olho para você e me lembro daquele quarto. Lembro que nenhum de nós estava no controle, mas ainda me sinto como se tivesse sido usada.
Seu rosto mal empalideceu.
—Eu também me lembro dessa peça.
—Para você, era uma prisão.
—Para nós dois.
A distância entre nós era curta, mas o passado ocupava muito espaço.
"Não quero que Noah cresça acreditando que o amor é uma obrigação", eu disse.
—Então não faremos isso.
Não houve beijos naquela noite.
Apenas uma promessa silenciosa de não mentir mais.
Passaram-se meses.
Veja o resto na próxima página.