Meu nome em seus lábios trouxe à tona muitas lembranças.
Diferente de antes, quando ele quase nunca dizia isso. Durante aqueles dois meses, eu me tornei para ele uma presença imposta, uma obrigação, uma consequência do desespero da mãe dele e do meu próprio.
Agora, quando ele disse isso, soou diferente.
Mais humano.
Mais perigoso.
Noah voltou com a garrafa de suco na mão.
—Pai, você disse que aquela era minha mãe. Isso significa que eu posso ir vê-la?
Ethan e eu nos entreolhamos.
Era uma pergunta simples.
Mas a resposta pode nos destruir a todos.
Agachei-me novamente em frente a Noah. Ansiava por acariciar seu rosto, massagear seus cabelos e abraçá-lo com uma força que compensasse os cinco anos perdidos. Mas eu não tinha o direito de invadir seu espaço.
"Isso depende de você", eu disse cautelosamente. "E do seu pai."
Noah refletiu por alguns segundos.
—Eu quero ir.
Senti meus olhos se encherem de lágrimas.
—Então você pode vir.
Ethan fechou os olhos por um instante, como se aquela resposta o incomodasse mais do que ele queria admitir.
Nada de extraordinário aconteceu naquela noite. Noah me fez perguntas. Muitas perguntas. Se eu gostava de chocolate. Se eu sabia fazer quebra-cabeças. Se era verdade que ele chorava muito quando bebê. Eu não sabia a resposta para essa última pergunta.
Ethan respondeu por mim.
—Você chorou quando estava com fome. Depois, adormeceu com as mãos fechadas.
Eu assisti.
—Você estava cuidando dele?
—Com quem você achou que minha mãe deixaria isso?
Eu não sabia o que dizer.
Na minha memória, Ethan era um pai distante, criado por enfermeiras e babás. Mas Noah se apoiava na perna dele com facilidade. Ele o contradizia sem medo. Pegou o celular dele para brincar. Não era resultado de negligência.
Quando eles saíram, Noah parou na porta.
—Posso te dar um abraço?
Tapei a boca com uma das mãos.
Assenti com a cabeça.
Seus bracinhos estavam em volta do meu pescoço. Ele cheirava a xampu de bebê e leite morno. Fechei os olhos e o abracei forte, com cuidado, como se ele pudesse se quebrar, como se tudo aquilo fosse apenas um sonho do qual eu pudesse acordar sozinha.
"Não chore", ele sussurrou no meu ouvido. "Papai diz que chorar não resolve nada."
Abri os olhos e olhei para Ethan por cima do ombro dele.
—Às vezes, sim— murmurei.
Ethan não respondeu.
Mas naquela noite, antes de ir embora, ele deixou um cartão sobre a mesa.
—Meu número pessoal. Se Noah perguntar por você, eu te aviso.
—Não preciso da sua permissão para ser mãe dele.
"Não", disse ela. "Mas ele precisa de tempo."
E desta vez, não pude contestar.
Nas semanas seguintes, Noah começou a vir duas vezes por semana. No início, Ethan sempre ficava. Ele se sentava em uma cadeira, checava seus e-mails e fingia não notar cada movimento de Noah.
Noah e eu nos conhecemos como dois estranhos unidos por laços de sangue.
Descobri que ele detestava ervilhas, mas fingia comê-las se lhe prometessem sorvete. Que tinha medo de trovões, embora dissesse que era apenas "o barulho que o incomodava". Que gostava de dinossauros, carros de corrida e histórias em que os dragões não eram maus.
Certa tarde, ele adormeceu no meu sofá, com a cabeça apoiada nos meus joelhos.
Acariciei seus cabelos sem ousar respirar muito fundo.
Ethan ergueu os olhos do computador.
—Quando eu era bebê, eu só conseguia dormir assim.
-Assim como?
—Com a mão tocando alguém.
Olhei para a mãozinha de Noah segurando minha saia.
—Talvez ele soubesse que alguém havia desaparecido.
Ethan permaneceu imóvel.
—Laura…
—Não. Não diga isso se não tiver a intenção de dizer tudo.
Seus olhos escureceram.
-Desculpe.
Duas palavras.
Nada mais.
Mas cinco anos de sofrimento se infiltraram em mim como uma porta enferrujada.
"Por quê?", perguntei. "Porque você achou que eu era um oportunista? Porque você não me procurou? Porque você deixou sua família me apagar da memória?"
-Por todo.
A raiva que eu esperava nunca veio. Em vez disso, um profundo cansaço se instalou.
"Eu também aceitei o dinheiro", eu disse. "Não sou inocente."
—Você era uma jovem desesperada tentando salvar sua mãe.
—E você era um homem doente a quem ninguém havia perguntado se queria ser pai.
Ethan soltou um suspiro lento. Pela primeira vez, não parecíamos inimigos.
Parecíamos dois sobreviventes da mesma tempestade, feridos em ambos os lados.
Mas a calmaria não durou muito.
Três semanas depois, o segredo chegou aos ouvidos da empresa.
Não sei quem vazou a foto. Um vizinho, talvez, um membro da família Graves, ou até mesmo um daqueles acionistas que sorriam na frente de Ethan enquanto afiavam facas pelas costas dele.
Na manhã de segunda-feira, quando entraram no escritório, um silêncio sepulcral se instalou.
Encontrei uma mensagem anônima no meu computador:
"Então a assistente do projeto acabou sendo a mãe do filho secreto do CEO. Quanto você cobrou desta vez?"
Senti náuseas.
No meio da manhã, o departamento de recursos humanos me ligou.
Na sala de reuniões estavam meu gerente, dois advogados da empresa e uma mulher do departamento jurídico que parecia estar indo a um funeral.
"Laura", começou ela, "há motivos para preocupação quanto a um possível conflito de interesses."
—Conflito de interesses? Meu relacionamento com o Sr. Graves começou cinco anos antes de eu começar a trabalhar aqui.
—No entanto, a situação corre o risco de afetar a imagem da empresa.
Entendi imediatamente.
Eles queriam que eu me demitisse.
Não por causa do meu desempenho.
Não por causa de um erro.
Por vergonha.
Meu gerente se recusou a olhar para mim.
"O Ethan sabe?", perguntei.
A mulher hesitou por um instante.
—O Sr. Graves está em reunião com investidores.
Sorri sem humor.
Claro. No mundo de Ethan, sempre havia reuniões importantes exatamente no momento em que minha vida estava desmoronando.
Levantei-me.
—Não assinarei nada.
—Seria mais difícil se ele decidisse resistir.
—Passei por cinco anos difíceis. Mais um não me assusta.
Saí de lá com as pernas tremendo.
Não consegui chegar ao elevador.
Ethan apareceu no final do corredor, caminhando rapidamente, com o rosto mais frio do que nunca. Atrás dele vinham seu assistente e dois homens que eu não reconheci.
"Quem autorizou esta reunião?", perguntou ele.
Ninguém respondeu.
A mulher do departamento jurídico saiu da sala, pálida.
—Sr. Graves, estávamos simplesmente tentando controlar a situação.
— Contendo isso, forçando um funcionário a se demitir?
—A imprensa poderia…
—A imprensa falará comigo.
Sua voz não se elevou, mas todos recuaram.
Então ele se virou para mim.
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